Eu moro ao lado de um restaurante de luxo. Vejo gente das mais altas classes todos os dias. E eu vejo muitas pessoas necessitadas, também. E vez ou outra eu vejo coisas que, em teoria, ninguém deveria ver. Eu vejo tudo.
O contrário, no entanto, não parece ser verdade. Na maior parte do tempo, eu sou completamente invisível. Eu ouvi falar certa vez sobre pessoas invisíveis virando super-heróis. Já ouvi falar de gente visível simplesmente desaparecendo por aí. Pelo jeito, eu ouço muita coisa. E é hora de contar parte de minha história a vocês, caros ouvintes.
Nasci em uma comunidade rural não muito longe daqui. Minha infância foi tranquila e razoavelmente feliz. Como bom caipira que era, esperava conseguir um pedaço de terra algum dia. Plantar um pouco de milho, talvez soja, talvez cana. Dizem que cana dá dinheiro hoje em dia. Não é de se espantar, de qualquer jeito. Eu mesmo sustento a produção de cana diariamente. Mas eu falava sobre minha casa. Era pequena e humilde - incrível como até hoje se faz essa associação de humildade com pobreza, não? -, mas limpinha. E eu tinha tudo pra crescer na vida. Isso, claro, até aquele memorável dia onde eu entrei em casa e me deparei com o tipo de cena que nunca se esquece.
Enfiaram a faca na barriga de minha irmã. E rasgaram até sair pela garganta.
Soa forte demais pra você? Pra mim também. Forte o bastante pra me deixar seis anos trancado naquela maldita cadeia. Você voltaria pra casa depois de um caso desses? Bom, eu não tenho mais uma casa pra voltar, meus jovens. E é por isso que eu moro aqui, entre a lanchonete e o restaurante.
A vantagem de ser morador de rua perto de estabelecimentos alimentícios é que você não morre de fome. Nós aqui, por exemplo, comíamos todos os dias. Um certo sujeito - tinha nome bíblico, se não me engano - nos alimentava todos os dias, sem pedir nada em troca. Me disseram certa vez que aquele latão que ele despejava na rua todas as noites era o lixo. Acho improvável: alguém com nome bíblico simplesmente não faria uma coisa dessas. "Querem comida?", ele dizia. "Pois comam, seus ratos. Quero ver esse chão limpo quando acordar amanhã!". Serviço de limpeza em troca de alimento. Nada mais justo. E, no fim das contas, não havia motivo pra reclamar, uma vez que as calçadas de nossa maravilhosa cidade serem mundialmente conhecidas por sua limpeza excepcional. Qualquer um lamberia as calçadas de nossa bela capital. Vocês todos fariam isso agora mesmo, se pudessem.
Sim, você está completamente certo, caro amigo. Eu moro na rua há mais de dez anos, agora. E a culpa não é de ninguém senão minha.
Certa vez eu ouvi falar sobre câmeras espalhadas por boa parte das cidades do mundo. Dizem que em Londres você é visto onde quer que você vá. Pelos Porcos, é claro. O que quer que você faça, eles estão olhando. É o tipo de paranóia que amedrontava o mundo nos anos 90. O Arquivo X tornado real.
Não faz muito tempo, eu mal conseguia me manter de pé. Em parte graças ao álcool, devo admitir. Mas os créditos também se devem aos assaltantes que me espancam constantemente aqui onde eu vivo. É uma área perigosa, vê? Não é como se fosse a capital do país. O curioso é que os assaltantes sempre usam o mesmo tipo de uniforme. Andam em carros barulhentos com coisas brilhantes em cima, como se não tivessem ninguém a temer.
Foi justamente nesse dia que me deparei com um sujeito estranho. Não faltava muito pra que eu me matasse, depois que meus dentes foram quebrados a coronhadas e golpes de cacetete. Me espantei quando percebi que ele me via. Deve ser uma das raras pessoas que conversam com os invisíveis. Ou só um maluco. Conversar me fazia falta, de qualquer jeito. Contei a ele essa mesma história. Falei sobre a comida jogada aos Ratos, sobre o esquema de espancamento feito pelos policiais e sobre as várias marcas que eles me deixaram. Me envergonho ao saber que chorei enquanto falava sobre não haver futuro.
O sujeito me parecia interessado no que eu tinha a dizer. Como se precisasse da minha história pra algum trabalho, no mínimo. Não tive tempo de perguntar. Não soube nem seu nome. Tudo aconteceu rápido demais: alguns segundos e aquela maldita viatura veio em minha direção. Os Porcos mais uma vez podiam me ver, e isso, meus caros, é um péssimo sinal.
Fomos abordados como vítimas de assalto, como de costume. O sujeito estranho me parecia calmo de uma maneira incomum. Falava com educação com os dois guardas, apesar de ambos terem saído da viatura apontando armas e rosnando como animais. Os Porcos falavam algo sobre seu cabelo, sua aparência e seus olhos vermelhos. Me lembrei de certa vez, quando ouvi falar sobre anatomia criminal. Me pareceu ficção, na época. Agora me sinto confuso.
O que eu sempre soube, e os porcos nunca descobriram, é que a irritação nos olhos daquele homem só existia graças a gente como eles. Malditos filhos da puta sustentados por uma autoridade doentia que resolvem pisar em outras pessoas simplesmente porque podem.
Não sei o que o camarada disse, mas os guardas o mandaram embora. Eu não tive a mesma sorte. Fiquei pra trás e aguardo meu destino terrível, me esperando em algum matagal vazio após um passeio de viatura.
Me ouçam bem, pelo menos dessa vez: se os porcos têm olhos mecânicos pra fuçar nas vidas de qualquer um, eu e a minha laia não somos muito diferentes. Somos olhos e bocas, sempre atentos nas ruas. Câmeras vivas. Vemos o que acontece de bom e o que há de pior por aí. Sabemos o que vai e o que vem em toda a cidade. Mas somos como um gravador quebrado, sem caixas de som: vemos e ouvimos tudo, mas nossas histórias raramente são escutadas.
...era só isso. Agora, quer lavar o carro, doutor?
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