Equilíbrio

Deparei-me certa vez com um velho de pernas trêmulas, que cambaleava pela rua com o desequilíbrio de quem finalmente se dá conta da velocidade com a qual o mundo gira sob seus pés. Ao me notar no caminho, sorriu com os poucos dentes gastos que lhe restavam, e, com esforço, arrastou-se em minha direção. Acenei-lhe com certo desinteresse e segui meu caminho - a fome pela vida me forçava a caminhar depressa -, mas antes que pudesse me desviar, o homem agarrou-se a mim como a uma oportunidade, me impedindo de ignorá-lo.

"A vida é assim, jovem" - ele disse - "Um dia você caminha com firmeza descomunal, como um tanque de guerra percorrendo uma estrada. Mas o tempo tem suas artimanhas. Hoje meus pés tremem de pânico ao pisar este chão novo, mudado".

Não concordei com suas palavras. Era evidente que o cansaço da vida havia afetado seu juízo e sua capacidade de medir os passos adequadamente. Mas antes que eu pudesse dizer-lhe qualquer coisa, continuou, com a voz enfurecida.

"Vê aquele homem?"

Aquele senhor, com seu manto branco completamente sujo da terra cor-de-sangue da cidade, apontava para um distinto cavalheiro de idade avançada, que trajava um terno fino, um belo chapéu e uma bengala prateada de excelente qualidade.

"Aquele homem possui passos firmes e a experiência de uma vida inteira", respondi ao velho, sem a menor intenção de mascarar minha expressão vitoriosa. Mas seu sorriso ainda estava lá, mais desafiador do que nunca.

"Certamente", falou, "uma vida inteira foi o suficiente para que ele construísse para si um apoio firme e estável. Mas é necessário muito esforço para levá-lo ao chão?"

E, com uma expressão de vitória final, aproximou-se do homem e chutou-lhe a bengala.

Autor : L. Sena ~

Artigo Equilíbrio Publicado Por L. Sena Na data de 3 de mar. de 2012. Foram Feitos 0 Comentários: Para o Artigo Equilíbrio
Comentários
Comentarmos
 

0 comentários:

Postar um comentário