Deparei-me certa vez com um velho de pernas trêmulas, que
cambaleava pela rua com o desequilíbrio de quem finalmente se dá conta da
velocidade com a qual o mundo gira sob seus pés. Ao me notar no caminho, sorriu
com os poucos dentes gastos que lhe restavam, e, com esforço, arrastou-se em
minha direção. Acenei-lhe com certo desinteresse e segui meu caminho - a fome
pela vida me forçava a caminhar depressa -, mas antes que pudesse me desviar, o
homem agarrou-se a mim como a uma oportunidade, me impedindo de ignorá-lo.
"A vida é assim, jovem" - ele disse - "Um dia
você caminha com firmeza descomunal, como um tanque de guerra percorrendo uma
estrada. Mas o tempo tem suas artimanhas. Hoje meus pés tremem de pânico ao
pisar este chão novo, mudado".
Não concordei com suas palavras. Era evidente que o cansaço
da vida havia afetado seu juízo e sua capacidade de medir os passos
adequadamente. Mas antes que eu pudesse dizer-lhe qualquer coisa, continuou,
com a voz enfurecida.
"Vê aquele homem?"
Aquele senhor, com seu manto branco completamente sujo da
terra cor-de-sangue da cidade, apontava para um distinto cavalheiro de idade
avançada, que trajava um terno fino, um belo chapéu e uma bengala prateada de
excelente qualidade.
"Aquele homem possui passos firmes e a experiência de
uma vida inteira", respondi ao velho, sem a menor intenção de mascarar
minha expressão vitoriosa. Mas seu sorriso ainda estava lá, mais desafiador do
que nunca.
"Certamente", falou, "uma vida inteira foi o
suficiente para que ele construísse para si um apoio firme e estável. Mas é
necessário muito esforço para levá-lo ao chão?"
E, com uma expressão de vitória final, aproximou-se do homem
e chutou-lhe a bengala.
0 comentários:
Postar um comentário