Existem textos em que o título, mesmo que pequeno, consegue sintetizar a idéia geral do que está escrito.
Tocou o último acorde com desdém. Não aguentava
mais aquilo de treinar, treinar e nunca se apresentar. Queria ação. Queria
subir no palco do São Jorge e ver as arquibancadas (ele chamava a platéia de
arquibancada) lotadas, todos gritando seu nome: Jo-el, Jo-el!. Mas não. Não
podia. Mamãe não deixava. Não queria ver seu lindo filho exposto daquela
maneira. Onde já se viu, sujeitar alguém tão novo às intempéries do julgamento
popular? Não, ela não ia aguentar aquela agonia. Não ela. Não que não confiasse
no talento do filho, mas o histórico de loucura da família a fazia acreditar
que aquilo era hereditário, e que uma rejeição diante de centenas, talvez
milhares, de pessoas poderia desencadear uma crise que levaria o menino do
palco direto para o hospício. Ela não queria perder mais um ente querido para
aquele inferno. Não queria todo aquele sofrimento mais uma vez. Seu pai, seu
avô, um tio e duas primas estão ou já estiveram lá. Não há espaço para mais um
Teodoro Maciel no Sanatório São Miguel.
Joel olhava fixo para o busto de Beethoven sobre o piano.
Aquele pequeno, porém imponente artefato de cera estava na família há mais de
um século. Sempre ali, sobre o portentoso instrumento, vigiando a recinto e
todo aquele que por ventura viesse sob ele estudar. O nome na base, Ludwig Van
Beethoven, talhado meticulosamente a mão e coberto com uma fina camada de ouro,
não deixava dúvidas que ali jazia um pouco da alma do grande mestre. Não à toa
que daquele piano saíram três dos mais conhecidos maestros nacionais,
ganhadores de prêmios internacionais e sublimes diretores da Orquestra
Sinfônica Nacional. Todos descendentes do Coronel Isaac Maciel, o patriarca da
família. Todos estudaram música naquele piano, sob o olhar ao mesmo tempo
fraterno e acusador daquele que é considerado um dos pilares da música
ocidental.
O olhar do garoto denunciava uma imersão sem precedentes. Era como o olhar de
alguém hipnotizado, alheio a tudo e a todos em sua volta, com um foco quase
inverossímil num ponto pré-determinado e que ninguém consegue encontrar senão
ele mesmo. Fizesse sentido ou não, Joel conversava com Beethoven. “Que faço, ó
grão-mestre varonil?” E na mente do rapaz o alemão fazia digressões dignas de
um Sócrates no auge da bebedeira. “Meu filho, tudo o que você tem a fazer é
aceitar. Aceitar, baixar a cabeça e continuar treinando. Sua hora ainda vai
chegar, e, além do mais, mãe é mãe. Ela sabe o que é melhor para você. Enquanto
você ainda é novo, deixa-a decidir. Daqui a pouco você fará 18 anos e poderá
decidir o que quiser da vida. Por enquanto treine. Treine que você com certeza
irá alcançar coisas bonitas”.
A conversa seguiu animadora. Joel fazia questionamentos que
Beethoven tinha a resposta na ponta da língua. O velho maestro nem pedia tempo
para pensar. Era pá-pum, como se dizia antigamente. E isso fazia o garoto
feliz. Conversar com aquele rosto inanimado era sua maior alegria do dia. Era o
momento que se sentia mais pronto, mais dono de si. Escutava os conselhos do
amigo com a passividade de um padre e o comprometimento de um cão. Depois de
ouvir o que o mestre pensava, Joel podia encarar qualquer platéia, podia tocar
qualquer peça, podia tentar qualquer variação. Com os conselhos de Beethoven,
Joel podia tudo.
Despediu-se do busto beijando-lhe a testa. Para
dar sorte, dizia. “Obrigado pelos conselhos, Ludwig Van”, Joel falou baixinho.
“O senhor é o único que me entende nessa casa”. Beethoven seguia imóvel,
impassível como só uma estátua sabe ser. E, da cozinha, a mãe observava tudo.
Viu desde o momento em que o menino se deixou levar pelo cansaço e relaxou nas
últimas frases até a hora da mística despedida entre homem e objeto. Às
lágrimas, pensou: “Já está louco, o coitado. Onde foi que eu errei? Onde foi
que eu errei?”
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