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40 Minutos

Eram sete da manhã, quando a terrível verdade me atingiu quase como um tiro no joelho. Durante pouco menos de uma hora eu estive por minha conta, sem nenhuma direção para casa, como um Rolling Stone. "Siga em frente", me disse um sábio certa vez, "com esperança em seu coração, e você nunca andará sozinho". Achei incerto, mas acreditei. Me lembro de termos caminhado pela madrugada da Califórnia, ou talvez no Texas, certa vez. Foi quando conheci sua fixação sexual por lésbicas e acidentes de carro. Mas isso é história pra algum outro dia.

O ponto onde eu quero chegar começa ás seis  e vinte, em uma rua fria de uma localidade qualquer. Eu atravessava a cidade. á minha volta, algumas poucas pessoas com expressão vazia, destruídas após uma noite difícil. Andavam como robôs, e seus olhos não fitavam as ruas ou o céu. Era como se cada uma daquelas pessoas tivesse os olhos voltados para dentro, e fitasse a si mesmo. Foi aparentemente, o último suspiro da cidade que então, adormeceu. Aquelas poucas pessoas passaram lentamente, e, aos poucos, desapareceram. Mas não eram mais eles a atrair minha atenção. Eu, cercado pelos muros de concreto, vi, de relance, um breve sinal de vida. Luz e calor no meio da noite vazia.

Eles se moviam quase como ratos, olhando em volta repetidas vezes, como se quisessem se certificar que os predadores se foram todos. Como cães, farejavam o lixo, roendo qualquer coisa que lhes parecesse comestível. A distância não me deixava ver as expressões em seus rostos. Desci as escadas. Dois policiais separavam as pessoas "de bem", que conversavam cansadas, das pessoas "da rua". Me lembro de ter visto duas crianças brigando como hienas por um agasalho. Em volta deles, outras crianças andavam e faziam pose, porque sabiam que aquela ali era a hora delas. Durante o dia eles todos são obrigados a aguentar abusos por parte dos "cidadãos de bem", que nem sequer tem a coragem de os olhar como pessoas. São gente invisível, exceto quando as pessoas querem reclamar. Me lembra aquele negócio da escravidão. "Ah, mas eles não tem alma, cara, não tem problema judiar". Pois bem. Eles aguentaram pacientemente, e agora estavam ali, triunfantes. Agora éramos nós os desprotegidos. Como abutres, eles circulavam famintos e cheios de rancor sobre nossas cabeças, esperando que um boi mais estúpido se afastasse da boiada. Admirei aquilo por algum tempo. Não, sair dali não era problema. A luz refletida no cascalho era quase uma barreira contra o mundo exterior, protegendo as pessoas comuns dos urubus que rondam a noite. 

Saí dali. Aquela proteção me incomodava. E me impedia de ver a coisa toda como eu queria. A fria brisa noturna acabava com qualquer sensação de segurança. É o mal da modernidade: Todos dizem que estão preparados pra enfrentar o mundo, deus e o diabo, mas ainda vivem numa maldita bolha. De qualquer jeito, eu sempre me dei bem com moradores de rua. Não sei se eles conseguem enxergar alguma coisa diferente nos meus olhos opacos e sem vida, se eles sabem que, no fundo, eu tenho algo como eles, se eles vêem que eu consigo enxergá-los (e, por trás deles, suas histórias e angústias) ou se eu simplesmente sou alguém que nem vale á pena perder tempo assaltando. Tanto faz. O movimento dos abutres me entediava, pois eles não estavam ali para viver, e sim pra assustar os vivos. Se contentavam em ser meros fantasmas por poucas horas. Me afastei dali.

...Um homem jazia no chão. As duas mãos cobriam a face, como se até na morte ele se escondesse. Outro gritava, com uma garrafa na mão, e apontava para o falecido. Não fazia questão alguma de fazer sentido, e nem se dirigia a pessoa alguma. Com os anos de experiência, aquele homem já sabia que isso era inútil. Para seus olhos, as pessoas não eram pessoas, mas sim espectros etéreos incapazes de percebê-lo. Não, seus gritos não eram nenhum alerta. Eram só desespero solitário, a ponto do homem usar de sua linguagem mais particular para exteriorizar a angústia. Urros e grunhidos ecoavam pela manhã vazia. Atrás dos prédios, o sol nascia, indiferente e frio.

...Outro homem atravessa a rua, sozinho. Por um breve momento seus olhos se desviam do negro desespero e encontram os meus. É o suficiente. Instantaneamente, ele abriu um sorriso. Os olhos, vermelhos, demonstravam um cansaço excessivo. A baba branca e espessa escorria do canto de sua boca e pingava em sua camisa, mas ele ainda sorria, satisfeito. Sabia que havia sido notado, e que não seria enxotado como um cão.

"A chave", disse ele. "Perdi a chave". Eu nada podia fazer, mas ele ainda se repetiu algumas vezes, como se esperasse algum ato divino do herói que o havia notado. Não havia nada a ser feito, eu não podia ajudar. Como se notasse minha inquietação, ele mais uma vez sorriu, deixando a chave e o desespero de lado. "Pra onde 'cê vai?", perguntou. Coçava a cabeça com seus dedos cobertos de baba, e ainda me olhava com alegria.

"Pra lugar nenhum". A risada simples se tornou então uma gargalhada amigável. "Então você não tem como se perder", disse ele, quase num momento de lucidez. "Não tem como se perder. E eu aqui sem a chave. Esperto é você, que não precisa delas".

...

Uma família de moradores de rua dormia no que, se me lembro bem, era um posto de gasolina abandonado. O contraste da cena seguinte me fez parar por vários minutos e observar o desenrolar daquilo tudo. De um lado da rua, uma mulher saía de casa. Os olhos verdes e vivos eram janelas para seus sonhos, seus planos, sua esperança. Passou por mim com o ar de quem está pronta para um novo dia, pronta para seguir em frente com sua vida. Pouco depois, um homem á minha frente lentamente despertava. Não tinha a menor vontade de se levantar, ou pelo menos era o que o seu olhar vazio me dizia. Talvez preferisse nem ter acordado. Talvez nem mesmo soubesse se estava vivo ou morto. Foi só quando o resto deles acordou que o primeiro homem mostrou algum sinal de esperança. Todos então conversavam, e, apesar de seus olhos ainda parecerem tristes, eles agora possuíam uma frágil esperança.

...

Andando entre uma rua e outra, esperando matar o tempo, uma senhora me para:

"Bom dia, filho. Você quer que eu ponha seu nome na nossa lista de oração de hoje?"
"Agradeço a gentileza, mas não, não quero."
"Mas vai te fazer bem. Jesus vai resolver seus problemas de família, de dinheiro, de amor."
"Não tenho nenhum desses problemas. Não quero sua oração."
"Mas você precisa de Jesus. Todos precisam de Jesus."
"Eu sou ateu, senhora. Não preciso de Jesus, nem da sua oração."
"Ah, mas aí é que você precisa da oração, mesmo! Não quer colocar o seu nome lá?"
"Olha. Você tá vendo aquele homem? Aquele gritando sozinho, com o outro caído do lado. Ele precisa da sua oração. Ele precisa da sua atenção. Vê aquelas pessoas deitadas com os cobertores? Eles precisam da sua oração. Por que você quer a mim quando só precisa olhar pro lado pra encontrar gente necessitada de verdade? Eu não quero a sua oração, não preciso de Jesus e me incomodo com você."

Passei uma hora conhecendo aqueles que se escondem do mundo. Aqueles que você humilha durante o dia porque acha que acordou cedo demais e brigou com a mamãe. Aqueles que você trata como simples pestes que te atazanam durante a parada no semáforo, por motivos inúteis. Pude ver a dor solitária e reprimida daqueles que você trata como sacos de pancada morais. Mas o mais terrível não é ver uma pessoa acordar desejando estar morta. O que é realmente assustador é de repente reparar que isso acontece todos os dias, e vocês são tão covardes que simplesmente fingem que essas coisas são invisíveis.

Não acho que pra mim a história fique completa sem citar o que se passou antes e o que se passou depois. Não que eu me importe com isso. De qualquer modo, só a Madrugada caberia aqui.
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Avenida Brasil


Às vezes você simplesmente sabe que as coisas vão ficar esquisitas. Todos os sinais que o mundo te dá apontam pra isso. É o que acontece quando você entra em um ônibus quase vazio, exceto pelo motorista com metade do rosto queimado, o cobrador e uma passageira, ambos anões, e uma albina careca. Você desce no meio de um lugar completamente desconhecido e vê um cego na faixa de pedestres, duas velhas - uma tremendo e a outra babando - caminhando, e todas as lojas estão fechadas. E, diabo, as pessoas estão todas comendo peixe e celebrando um sacrifício humano de dois mil anos atrás!

Quando aquele sujeito apareceu, eu sabia que estava pra acontecer. Quer dizer, ele era provavelmente a única pessoa normal ali, no meio do Mundo Bizarro. Com certeza, tinha algo de errado. Pois bem, esses são os acontecimentos que se seguiram:

Em primeiro lugar, veio a faca. Não faz muito sentido mostrar uma faca a um cego, de qualquer jeito, mas os dois atravessaram a rua.

"Tu perdeu, mané", disse o homem. "Vamo ali comigo, quietinho, quietinho".
"Mas... o que você quer? É dinheiro?"
"Quietinho, eu disse. Só quero ver a carteira entrando no beco".


Andaram quase como dois irmãos. As pessoas aprendem a fingir na hora do sufoco, de qualquer jeito. Pelo menos aqui. Já era de se esperar, não? Quem são os nossos heróis, no fim das contas?

Temos Pedro Malazartes, que faz de um urubu adivinhão e um punhado de mentiras seu ganha-pão. João Grilo, que foge até do diabo com enganação e esperteza. De manhã vemos no jornal como um gordinho carismático enrolou meio Brasil com lorotas bem contadas e viveu como um rei. Depois do almoço, torcemos pra que Seu Madruga consiga mais uma vez adiar o aluguel. No cinema, ouvimos a história de forasteiros rebeldes, que torcem qualquer lei com suas sub-metralhadoras. Sua violência depois é justificada porque ele "fazia o bem". De noite, tem o maldito Pica-Pau. Baita sujeitinho esperto. Colocamos as crianças pra dormir contando como um gato falante com botas matou um gigante usando de sua lábia e vamos, por fim, orar ao Senhor, o mesmo que pede o sacrifício de filhos só por pirraça. Dá pra imaginar o Altíssimo descendo de seu enorme trono e dizendo "Íáááá! Pegadinha do Malandro!"

O fato é que, nas telas e nos contos de fada, os fins sempre justificam os meios. Fora delas, os meios causam uma baita duma frescura. Entra aquele negócio do "politicamente correto", de você não poder chamar um negro de negro ou um viado de viado. Acho que todo mundo já pensou em mandar esses cuzões todos tomarem no meio de alguma coisa, de qualquer jeito.

Você vê, o racismo mesmo, ele tá mais nos ouvidos do cara do que na boca de quem diz. Quer dizer, o cara diz "e aí, bicha" e a bicha se ofende? Quer dizer, alguém OBRIGA o cara a ser bicha, pra ele ficar tão sentido?

O que me faz pensar naquela faculdade pra negros que criaram agora. Faculdade Zumbi dos Palmares, né? Eu sei lá o nome. Tudo começou com as cotas - o governo dizendo que os negros não tem capacidade pra competir com o resto do mundo. Depois, essa faculdade-quilombo, dizendo que eles precisam de toda uma estrutura de ensino especial. Qual o próximo passo? Banheiros separados? Apartheid? Vocês são todos uns cuzões, porra! E ainda querem dizer que eu é que sou o racista? Cuzões, cuzões, cuzões!

Ah, o cego? Voltou dez minutos depois, com a vareta quebrada, sem os óculos escuros e com a carteira do assaltante. Me olhou com um sorriso esperto no rosto. Aquele de quem sabe que você percebeu a coisa toda. Examinou a carteira, guardou no bolso e riu.

"Ah, onde esse país vai parar? Até os assaltantes são manés hoje em dia, maluco. Cair no conto do cego? Pffff! Fica na paz, irmão".

Agora, o que eu realmente gostaria de saber é como os anões fazem pra puxar a cordinha caso estejam sozinhos no ônibus.
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Da universalidade


Não sei exatamente dizer quando foi que o ser humano começou a determinar prescrições e descrições universais, mas é fato notório que tal universalidade se faz bastante presente não só na nossa cultura, mas no que nós conhecemos de outros coletivos. Um fator que, segundo o próprio Lévi-Strauss, se mostra presente em quase todas as culturas é o fato de não entendermos a multiplicidade cultural como fenômeno natural e, como consequência, aceitável. De imediato, um contato direto com outras culturas causa um estranhamento que muitas vezes é interpretado religiosamente, criando assim impasses e incompatibilidades culturais. Não que a origem dessas dicotomias sejam sempre religiosas, utilizei-me desse exemplo aqui apenas com caráter ilustrativo. Tais impasses podem ter origem também, por exemplo, no âmbito econômico.

Historicamente falando, houve uma época em que a pluralidade cultural era interpretada sob uma ótica darwinista, o que deu os subsídios necessários para que se desenvolvesse uma pseudo-ciência que acreditava que encontraria as provas empíricas para determinar uma hierarquia de raças, onde os brancos europeus se situavam no topo. Essa pseudo-ciência era chamada de Eugenia, e foi dela que Hitler se fez valer em seus discursos sobre a criação de uma Alemanha superior, onde só existiria a famigerada raça ariana. Felizmente, com o fim da Grande Guerra e com a revelação das atrocidades cometidas no regime do holocausto, a eugenia deu seu último suspiro antes de ser descartada e qualificada como parte da história que alguns fariam questão de apagar, mas que se deve evidenciar, para que dessa forma se aprenda com os erros do passado.

É nesse contexto que surge um forte sentimento de fraternidade entre os seres humanos, e a partir disso, e com o sentimento de tentar evitar que a história se repita, é elaborada a Declaração Universal dos Direitos Humanos. É a primeira vez que vocês me veem falar dela aqui, mas não será a última, o ano de 1948 fica marcado como um salto que a humanidade deu para se tornar, como muitos caracterizariam, mais humana.

O texto da carta dos Direitos Humanos se mostra bastante aberto a aceitar as liberdades e direitos civis, como expressar cultura e religião. Tais premissas recebem um forte apoio da teoria relativista antropológica, que nos faz relativizar aquilo que nos é cultural, e portanto considerado normal de acordo com nossos padrões. Sob essa égide, torna-se bastante comum executar o exercício de familiarização com outras culturas, para que sejam expostos a práticas diferentes das ocidentais e possam passar a apenas aceitar aquilo como diferente, e não emitir uma análise essencialmente axiológica como um cidadão ignorante ao relativismo faria. Seguindo esse raciocínio, os argumentos para definir expressões culturais hierárquicas são facilmente desconstruídos.

O meu objetivo ao fazer toda essa introdução é demonstrar, de maneira rápida e sucinta, o argumento acadêmico que é utilizado para fundamentar a afirmação de que não existem culturas melhores ou piores, apenas diferentes. Tal afirmação é corroborada pela Carta dos Direitos Humanos, que preza pela igualdade e pela multiplicidade cultural. A problemática que vem à tona ao considerar isso tudo é bastante controversa e polêmica, e arrisco apostar neste momento do texto que nenhum de vocês, caros leitores, sairá em defesa da expressão cultural tal como ela é ao fim do texto.

Nesse momento, quase posso imaginar que os pensamentos que perpassam as cabeças de meus futuros leitores, indagando a que tipo de expressão cultural eu estou prestes a questionar. Aqui não irei me referir a uma prática em específico, mas a todas as práticas que vão diretamente contra os princípios fundamentais dos Direitos Humanos. Uma delas, que creio que a maioria de vocês já ouviram falar, é a mutilação vaginal, que é muito presente em alguns países africanos, islâmicos e asiáticos. Tal prática consiste, basicamente, na remoção do clitóris para que a mulher não obtenha prazer durante a prática sexual. Outro exemplo, é o infanticídio presente em algumas culturas indígenas, que acontece não por fatores de controle de natalidade, mas muitas vezes por crenças religiosas.

É aqui que fundamento meu questionamento principal: será que as culturas são apenas diferentes? Temos, de fato, a capacidade de sermos frios o suficiente para afirmar que tais costumes são apenas de ordem diferentes das nossas? A carta dos Direitos Humanos, que parecia tão unívoca para mim ao afirmar a igualdade irrestrita de culturas, parece perder força em seu argumento. Como bom ateu, e portanto alguém que acredita na validade do argumento científico, não posso clamar por verdade absoluta e dizer que esses dois exemplos que eu dei são práticas que devem ser consideradas condenáveis sob qualquer ponto de vista. Mas nesse sentido que eu vos apresentei, tenho a certeza ao afirmar para vocês que eu acredito na necessidade da construção de um juízo de valor. Deixando explícito, neste momento, que tal juízo de valor não deve ser, de forma alguma, absoluto, ou seja, as ideias e os valores construídos pelas pessoas devem ser constantemente questionados com a finalidade não de subverte-los, mas de aprimorá-los.
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Sobre Porcos e Ratos


Eu moro ao lado de um restaurante de luxo. Vejo gente das mais altas classes todos os dias. E eu vejo muitas pessoas necessitadas, também. E vez ou outra eu vejo coisas que, em teoria, ninguém deveria ver. Eu vejo tudo.

O contrário, no entanto, não parece ser verdade. Na maior parte do tempo, eu sou completamente invisível. Eu ouvi falar certa vez sobre pessoas invisíveis virando super-heróis. Já ouvi falar de gente visível simplesmente desaparecendo por aí. Pelo jeito, eu ouço muita coisa. E é hora de contar parte de minha história a vocês, caros ouvintes.

Nasci em uma comunidade rural não muito longe daqui. Minha infância foi tranquila e razoavelmente feliz. Como bom caipira que era, esperava conseguir um pedaço de terra algum dia. Plantar um pouco de milho, talvez soja, talvez cana. Dizem que cana dá dinheiro hoje em dia. Não é de se espantar, de qualquer jeito. Eu mesmo sustento a produção de cana diariamente. Mas eu falava sobre minha casa. Era pequena e humilde - incrível como até hoje se faz essa associação de humildade com pobreza, não? -, mas limpinha. E eu tinha tudo pra crescer na vida. Isso, claro, até aquele memorável dia onde eu entrei em casa e me deparei com o tipo de cena que nunca se esquece.

Enfiaram a faca na barriga de minha irmã. E rasgaram até sair pela garganta.

Soa forte demais pra você? Pra mim também. Forte o bastante pra me deixar seis anos trancado naquela maldita cadeia. Você voltaria pra casa depois de um caso desses? Bom, eu não tenho mais uma casa pra voltar, meus jovens. E é por isso que eu moro aqui, entre a lanchonete e o restaurante.

A vantagem de ser morador de rua perto de estabelecimentos alimentícios é que você não morre de fome. Nós aqui, por exemplo, comíamos todos os dias. Um certo sujeito - tinha nome bíblico, se não me engano - nos alimentava todos os dias, sem pedir nada em troca. Me disseram certa vez que aquele latão que ele despejava na rua todas as noites era o lixo. Acho improvável: alguém com nome bíblico simplesmente não faria uma coisa dessas. "Querem comida?", ele dizia. "Pois comam, seus ratos. Quero ver esse chão limpo quando acordar amanhã!". Serviço de limpeza em troca de alimento. Nada mais justo. E, no fim das contas, não havia motivo pra reclamar, uma vez que as calçadas de nossa maravilhosa cidade serem mundialmente conhecidas por sua limpeza excepcional. Qualquer um lamberia as calçadas de nossa bela capital. Vocês todos fariam isso agora mesmo, se pudessem.

Sim, você está completamente certo, caro amigo. Eu moro na rua há mais de dez anos, agora. E a culpa não é de ninguém senão minha.
Certa vez eu ouvi falar sobre câmeras espalhadas por boa parte das cidades do mundo. Dizem que em Londres você é visto onde quer que você vá. Pelos Porcos, é claro. O que quer que você faça, eles estão olhando. É o tipo de paranóia que amedrontava o mundo nos anos 90. O Arquivo X tornado real.

Não faz muito tempo, eu mal conseguia me manter de pé. Em parte graças ao álcool, devo admitir. Mas os créditos também se devem aos assaltantes que me espancam constantemente aqui onde eu vivo. É uma área perigosa, vê? Não é como se fosse a capital do país. O curioso é que os assaltantes sempre usam o mesmo tipo de uniforme. Andam em carros barulhentos com coisas brilhantes em cima, como se não tivessem ninguém a temer.

Foi justamente nesse dia que me deparei com um sujeito estranho. Não faltava muito pra que eu me matasse, depois que meus dentes foram quebrados a coronhadas e golpes de cacetete. Me espantei quando percebi que ele me via. Deve ser uma das raras pessoas que conversam com os invisíveis. Ou só um maluco. Conversar me fazia falta, de qualquer jeito. Contei a ele essa mesma história. Falei sobre a comida jogada aos Ratos, sobre o esquema de espancamento feito pelos policiais e sobre as várias marcas que eles me deixaram. Me envergonho ao saber que chorei enquanto falava sobre não haver futuro.

O sujeito me parecia interessado no que eu tinha a dizer. Como se precisasse da minha história pra algum trabalho, no mínimo. Não tive tempo de perguntar. Não soube nem seu nome. Tudo aconteceu rápido demais: alguns segundos e aquela maldita viatura veio em minha direção. Os Porcos mais uma vez podiam me ver, e isso, meus caros, é um péssimo sinal.

Fomos abordados como vítimas de assalto, como de costume. O sujeito estranho me parecia calmo de uma maneira incomum. Falava com educação com os dois guardas, apesar de ambos terem saído da viatura apontando armas e rosnando como animais. Os Porcos falavam algo sobre seu cabelo, sua aparência e seus olhos vermelhos. Me lembrei de certa vez, quando ouvi falar sobre anatomia criminal. Me pareceu ficção, na época. Agora me sinto confuso.

O que eu sempre soube, e os porcos nunca descobriram, é que a irritação nos olhos daquele homem só existia graças a gente como eles. Malditos filhos da puta sustentados por uma autoridade doentia que resolvem pisar em outras pessoas simplesmente porque podem.

Não sei o que o camarada disse, mas os guardas o mandaram embora. Eu não tive a mesma sorte. Fiquei pra trás e aguardo meu destino terrível, me esperando em algum matagal vazio após um passeio de viatura.

Me ouçam bem, pelo menos dessa vez: se os porcos têm olhos mecânicos pra fuçar nas vidas de qualquer um, eu e a minha laia não somos muito diferentes. Somos olhos e bocas, sempre atentos nas ruas. Câmeras vivas. Vemos o que acontece de bom e o que há de pior por aí. Sabemos o que vai e o que vem em toda a cidade. Mas somos como um gravador quebrado, sem caixas de som: vemos e ouvimos tudo, mas nossas histórias raramente são escutadas.

...era só isso. Agora, quer lavar o carro, doutor?
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Da Prostituição


Esses dias, ouvi duas senhoras católicas em sua habitual roda de fofoca. Contavam terríveis histórias sobre pessoas que acabaram emaranhadas nas monstruosas teias da prostituição. Falou-se sobre uma certa garota, filha de pais ricos, que fingia ir à faculdade pra rodar bolsinha, e sobre um certo michê que passava quase todos os dias na praia jogando futebol com os amigos e comendo camarão, tudo pago com a venda de seu próprio corpo, claro.

"Ele dizia que vivia bem", dizia uma das senhoras, "Algumas das clientes o levavam pras melhores festas, ele ia pros melhores motéis, ganhava um bom dinheiro e tinha que se preocupar só em manter a beleza. Mas às vezes eu me pergunto: será que isso é mesmo vida?"

Eu sempre quis entender que porra de demonização é essa que existe com uma profissão tão antiga. Uma meretriz é como uma artista - uma musicista, por exemplo. Em troca de algumas horas de sua habilidade de entreter os outros, recebe dinheiro. Nada mais justo, e não há problema algum, há?

...ah, sim. O sexo. Às vezes eu me esqueço que vocês enxergam o diabo em todas as coisas boas da vida. Talvez tenha a ver com aquela idéia grega antiga de miasma. "Aquele que comete o mal é contaminado por ele, e não pode ser limpo enquanto não for levado à justiça e pagar penitência, blá blá blá".

Talvez faça bastante sentido pra vocês. E, olha só, existem até evidências visuais do sexo espalhando o mal! A AIDS, a gonorreia e o cancro mole, por exemplo, são a manifestação de Satã no templo do corpo humano quando se comete o pecado da carne. Certo?

Além disso, algum dia vocês enfiaram na cabeça que sexo e amor são grudados com extrema força, como a perna de um coitado e uma armadilha de urso, por exemplo. Lhes dou alguns exemplos da grande mentira que tal afirmação é: Você não sente amor por sua vizinha, mas quer fodê-la. Do mesmo modo, seu pai não amava sua mãe, seu cachorro não ama as cadelas da rua, o governo não ama nenhum de nós e a galera do sertanejo universitário definitivamente não ama a música. Já por outro lado, curiosamente há a ligação entre o amor e o sexo no caso das doces meretrizes: o sexo lhes traz dinheiro, e todo mundo ama receber dinheiro. Ainda mais depois de uma noite de trabalho duro.

Dito isso, acho que podemos analisar melhor o caso do tal michê. O homem gosta de seu emprego, dos lugares que visita, do salário que ganha e do tempo livre que tem pra ir à praia. O que faz dele, possivelmente, um sujeito feliz. Logo, por que não dizer que ele vive... e bem?

Do outro lado, temos duas velhas que gastam a tarde, em plena segunda-feira, falando mal da vida dos outros talvez porque não existe nada de interessante pra se falar da própria.

E aí às vezes eu me pergunto: isso lá é viver?

Percebam, seus vermes malditos, que a noção de prostituição forçada não foi sequer citada no texto.



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Da natureza humana


A discussão hoje é sobre um assunto bem polêmico, com todos os tipos de opiniões. Iremos discorrer sobre um questionamento que há muito vem sendo tratado pelos filósofos, e desconstruído pelos antropólogos. A pergunta é: Existe algum comportamento naturalmente intrínseco ao ser humano? Algo que nós somos independente da sociedade em que estamos inseridos, independente de fatores externos? Existe, de fato, uma natureza humana?

Para Aristóteles, o homem era naturalmente bom, mas este se degenerava devido a sociedade. Caberia indagar aqui como que um ser que é essencialmente bom, constrói uma sociedade decadente e autodestrutiva. A proposição de Aristóteles é um tanto otimista, e está fora do meu alcance formular argumentos que dêem suporte para sua teoria. Mas vale coloca-la aqui, para caso algum de vocês tenha algo para levantar na nossa discussão a esse respeito nos comentários.

Indo adiante, temos Hobbes e Locke com proposições mais interessantes sob meu ponto de vista. Ambos afirmavam que, apesar de Locke nos trazer o conceito de Tábula Rasa, nós somos naturalmente maus, mas que podemos alcançar uma sociedade ideal através da história e da ciência. Historicamente notaríamos a presença de diversos conflitos e tomaríamos uma posição para evitá-los visando um bem comum. Os conflitos gerados por alimentos ou abrigo seriam sanados pelo desenvolvimento científico, que se encarregaria de suprir todas as necessidades humanas através da tecnologia. Mais ou menos como coloca Asimov em "Eu Robô", que aliás, recomendo a leitura. E não, não tem nada a ver com o filme do Will Smith. [Spoiler] Pra quem não leu, basicamente os humanos colocam as máquinas para desenvolver todo o trabalho de distribuição de recursos, mantendo a sociedade igualitária. [/Spoiler]

Já para o final do século XXI, temos uma derivação do que diziam os contratualistas com Nietzsche, que afirma que o ser humano é essencialmente egoísta, que todas as suas ações se baseiam no ganho pessoal. Chega a ser obscuro pensar dessa forma, já que teríamos o altruísmo e o sacrifício sendo feitos com um objetivo pessoal. Será que temos uma satisfação ao ver crianças carentes felizes recebendo presentes? Visamos a nossa felicidade em saber que a pessoa amada saiu ilesa devido ao seu sacrifício de se atirar na frente do disparo? Essa proposição faz bastante sentido, mas ela é posta em cheque pelo que vem a seguir.

O relativismo antropológico afirma que não existe nada natural ao ser humano que exceda as suas necessidades básicas à sobrevivência. Todo o resto seria fruto de uma construção cultural que vem direto do berço. Essa desconstrução nos leva a ter uma certa esperança para o ser humano. Mas seria ela a correta?

Não há meios para se afirmar com certeza que quaisquer uma das proposições citadas está correta. Eu, particularmente, vejo como mais coerente o que Nietzsche trás para nós como natureza humana, apesar de o argumento antropológico fazer bastante sentido também. Enfim, argumentem.



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Demasiadamente robóticos


Vocês conhecem a filosofia determinista? Bom, como não é a coisa mais inteligente subestimar vocês, vou explicar por alto. Determinismo é uma doutrina que diz que o ser humano é fruto direto do meio, ou seja, todas nossas ações são pré-determinadas pelo contexto que a gente vive. Resumidamente, é o oposto ao conceito de livre-arbítrio. Eu considero a doutrina deveras radical, já que ela afirma que não existem escolhas na vida do homem que não sejam pré-determinadas, o que existiria, seria a ilusão de escolha. Esses conceitos servem para ilustrar o tema que eu quero tratar, o de uma sociedade como fábrica.

Algum de vocês já teve a epifania de perceber a semelhança de uma escola com uma fábrica? A fábrica recebe matéria prima, que é transformada em produto que é vendido no mercado. A escola recebe alunos, que são transformados em mão-de-obra e são vendidos no mercado de trabalho. Claro e límpido como a água. Percebe que seguimos um padrão mais ou menos ordenado que tenta manter tudo como está? Mas nós somos acostumados demais, inertes demais, e sempre que aparece alguém querendo mudar alguma coisa, jogando a merda na cara de todo mundo e falando que só porque você se acostumou com o fedor não quer dizer que é porque parou de feder, julgam-no maluco. Acostumamo-nos a seguir padrões, e o primeiro deles é o de ser uma pessoa boa. 

Aí é que entra a questão espiritual, esse medo todo que nós temos de morrer acaba fritando alguns miolos. Uns dizem que a gente volta e coisa e tal. Outros já falam que quando saímos daqui zarpamos para uma jornada intergalática na vida eterna. Isso tudo acaba gerando uma consciência bizarra de que nós temos que ser santos, que as nossas atitudes aqui vão influenciar nessa porra de eternidade. Porque ser santo? As pessoas tentam se aproximar da divindade quando na verdade elas deveriam ser humanas, criam uma projeção divina da perfeição e querem que todos se tornem o mais próximo daquilo. Que há de errado em ser humano? Não nasceste assim? Um filme excelente que mostra isso é o Fight Club, pena que o filme fica uma merda do meio para o final, mas a idéia de quebrar as convenções sociais, alcançar aquilo que você pretende pra sua vida, estar se lixando para o sistema e o que pensarão de você, isso é ser humano, isso é se libertar. Interessante é que "ser bom" significa dançar conforme a música, respeitar os tabús e ser mais um qualquer que segue a nova onda das hypes. Falando nisso, porque você não entra na vibe e twitta isso aqui falando que tem um filho da puta qualquer está criticando o fato de você estar mais preocupado com o próximo capítulo da novela, ou em quando vai ser o próximo jogo do flamengo do que com coisas que realmente importam na sua vida? 


Dizem que se preocupam com a nossa educação, com a formação de cidadãos críticos que levarão essa nação para frente. Será que esse para frente não é uma mera questão de perspectiva? Ops, acho que isso não era pra ter sido notado. A nossa essência é ser livre, mas isso está a toda hora sendo roubado de nós, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Criam-se leis, valores, religiões, regras, morais, pecados e outras coisas mais que nos desumanizam, nos aproximam da máquina e do admirável mundo novo. Aqueles que comandam nada mais querem do que a humanidade funcionando mecanicamente, sem os distúrbios que a essência humana causa. E sabe o que mais? Eles estão conseguindo.


Quando a igreja inventou o pecado, inventou o instrumento de controle

José Saramago


Foi aí que nós perdemos de vez a nossa humanidade.
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Educação Infantil


Já percebeu como hoje em dia toda criança ‘maltratada’ vira rebelde? Vários especialistas em educação e psicólogos dizem que não se pode bater em uma criança porque ela pode ficar com trauma e se revoltar contra os pais quando crescerem ou algo assim. Devemos ser bons pais, tratar nossos filhos com extremo cuidado e não dar aquelas ‘palmadinhas básicas’ para não formarmos futuros ‘serial killers’. Será? Todo esse papo pode até ser ‘bonitinho’ e nos ajuda a imaginar uma sociedade melhor e sem violência para os nossos filhos, netos e bisnetos. Mas todo mundo sabe que na prática isso é bem diferente.

E se teu filho for uma peste que faz bagunça, barulho e escândalo em todo lugar que vai? Tu vai falar o quê pra ele? ‘Meu filho, não faça isso, isso é muito feio. Você deveria se comportar melhor, pois se você for malvado o papai noel não lhe dará presentes no natal.’ Primeiro que, se o moleque é uma peste, ele nunca vai escutar você falando um monte de baboseira dessas! Vai cuspir na tua cara e mandar você larga-lo. E tu vai ficar com que cara? Se o pivete faz a maior baderna quando tuas visitas estão na tua casa? Vai olhar pro menino e comentar: ‘Olha mulher, tão lindo ele cagando no meio da sala!’ Não podemos ser ridículos.


Não estou defendendo a violência contra as crianças, longe disso. Nem aqueles pais doentes que espancam seus filhos por causa de alguns erros. Mas umas palmadinhas na hora certa não deixam ninguém revoltado. Eu mesmo apanhei muito quando era pequeno e não me revoltei. Pelo contrário, entendo o porquê de todas as bofetadas que levei (que não foram poucas) e ainda acho que, em alguns casos, foi pouco. Lembro de um dia em que me escondi atrás da porta do banheiro e deixei toda a minha família pensando que eu tinha sido raptado, e tudo por não querer tomar banho. Quando eu saí do meu esconderijo não fizeram nada, só agradeceram a Deus porque eu estava bem. Outra vez fiz minha mãe queimar o dedo porque fiquei enchendo o saco pedindo 1 real para ir jogar vídeo game, ela pegou a chinela e arremessou na minha direção, porque, quando eu a vi tirando a chinela do pé, disparei na direção oposta. Acertou bem nas minhas pernas e eu caí estatelado no meio da sala. Vários parentes estavam na minha casa e não houve problema nenhum porque eles riram daquela cena. Cresci, e amo minha mãe mais do que tudo no mundo.


Agora se alguns pensam que a ‘psicologia infantil’ resolve tudo aí fica difícil. Por isso que só o que se vê nos noticiários são filhos matando os pais por causa de dinheiro. Educar um filho não é fácil e certas babaquices e mitos divulgados só ajudam complicar essa tarefa. Que se danem os defensores da Super Nanny. É lógico que o que ela diz ajuda, mas seguir rigidamente os seus conselhos pode não ser recomendável. A vida real não é um programa onde se podem editar cenas. É muito diferente disso.


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Somos todos mercenários


Outro dia vi um grupo de pessoas discutindo sobre a vida acadêmica. Tentavam chegar a um consenso sobre se ela é ou não o melhor caminho para o sucesso. Reclamavam, claro, do salário de artistas e jogadores de futebol. Aparentemente, é injusto que tais algozes da sociedade recebam tão bem enquanto pessoas de bem que estudaram suas vidas inteiras, como médicos, policiais, professores e funcionários públicos, não o fazem.

 Percebam, caros compatriotas, que o ponto aqui é exatamente a definição de sucesso. O que pude notar é que, para a maioria das pessoas, "sucesso" é um conceito bem simples, e pode ser medido pela sua capacidade econômica, além, claro, do modo como você é visto pela sociedade. E a vida, ao que parece, é nada mais do que uma grande busca pela honra, pela glória, pelo júbilo e pelo fucking sucesso.

Acontece na sua vida profissional - são irrelevantes seu talento e suas realizações enquanto você continuar morando num barraco enlameado e o único rei que você conhecer de perto for um urubu. O mundo profissional - lhe foi dito pelos Grandes Profetas nos Outdoors - é uma arena gigantesca, onde seres humanos devem, obrigatoriamente, se degladiar para atingir a glória. Só pode haver um, já disseram em Highlander.

Também é assim nas relações pessoais: todos sabem que é burrice desperdiçar valiosas e não-renováveis doses de amor, por exemplo, caso não haja nenhuma garantia de retorno. Até a sua estúpida relação com seus deuses é assim! "Faço o bem em troca de um apartamento no Paraíso, com vista pro mar, mobiliado com itens de ouro e povoado por concubinas virgens que obedeçam o meu comando."

Nos últimos tempos, a busca pela segurança tem ultrapassado os limites do bom senso de tal modo que nós, cidadãos comuns, nos transformamos em criaturas covardes, incapazes de dar novos saltos sem uma corda para nos segurar. Nós dizemos "eu não voto, não confio em governos" porque não podemos sustentar a chance de estarmos errados. Um assassino que falhe, no fim das contas, não deveria esperar por qualquer pagamento.

Percebam, no entanto, caros muppets, que status social e poder de compra nada tem a ver com merecimento. Nunca tiveram. Reis eram reis porque nasceram assim - e príncipes mantém o seu "sangue real" independente de qualquer estupidez, como, digamos, se vestir de nazista em festas da high society.

No fim das contas, é completamente idiota dizer que "tal pessoa MERECE" mais ou menos dinheiro pelo que faz. Ela simplesmente tem ou não. O poder de compra e de troca se move através de acordos, e nós, nesse ponto, somos todos mercenários. Se essa história de merecimento existisse, eu deveria ganhar milhões todos os dias só por aturar vocês, pessoas de bem.

Só me façam um favor e não tentem justificar suas ações com o uso da enferma moralidade. Eu ofereço meus serviços por um punhado de moedas; você o faz por títulos imobiliários no pós-vida. Alguns gostam de se vender por preços mais baixos, que posso eu fazer?

Quanto a mim, fico feliz em erguer meu barracão na Avenida Inferno. Por um terreno lá, eu não pago com tempo - o que me sairia muito caro -, e, como já dizia um certo garoto, o que eu faço, faço porque gosto

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Fumar vei, fumar...


Sério que eu comecei falando  sério,  se você for daqueles conservadores de merda, cê tá no site errado.

É difícil acreditar, mas isso aqui é uma coluna humorística. O texto é irônico, ou seja, NÃO faz apologia ao cigarro - pelo contrário, na verdade é um tapa na cara da sociedade (eu SEI que você riu). Mas nem por isso quer dizer que eu estou tentando fazer vocês pararem com um vício delicioso, isso seria tão imbecil quanto... pensar que eu faria isso. Só quero exercitar o sarcasmo e deixar vocês confusos, pra variar. Enfim, poupe suas lágrimas pro enterro daquele seu parente ou amigo fumante. Mas, sim, eu quero que cês morram, de qualquer forma.


Viu? Se você já ficou puto com essa frase, além de não entender muito sobre ironia é sensível demais pra estar lendo um site desses, ó.



Cada fumante fiel equivale a N novos empregos*

*Ou Mais.

1 - O truta que faz os cigarros vai precisar contratar mais gente se a demanda aumentar. Se você fumar COM VONTADE, pode sustentar uma família! Não a sua, óbvio. Fumantes só sustentam o próprio vício.

E se você levar seu vício a sério, pode contribuir com a criação de uma nova FÁBRICA, cara. Isso são CENTENAS de empregos novos!

2 - O truta que transporta/distribui os cigarros, como no caso acima, também vai precisar de mais gente. Aí, por tabela, vem os fabricantes de caminhões e os vendedores de caminhões. Todo mundo vai ter trabalho!

3 - O truta que vende o cigarro na padaria, bar, ou... não vende, fuma. Se você comprar sempre com ele, ele finalmente vai poder contratar uma faxineira praquele muquifo.

4 - O hospital que você frequentará assiduamente futuramente vai precisar de uma ambulância nova, além de um enfermeiro e mais um médico. Fora os caras da manutenção, o laboratório dos remédios e até mesmo a polícia que vai acabar pegando um desses que você ajudou a empregar por tráfego ilegal de morfina.

5 - O dentista que vai te mandar pra outro dentista (e por aí vai) porque todos eles um dia vão ficar de saco cheio desse bafo de merda. Sério, fumar deixa um gosto de pé de mesa de imbua na boca. Qual é a ESPETACULARIDADE disso? Bom, não importa. O que importa mesmo é que você continue fumando, é claro.

6 - A funerária que vai fazer um dos serviços mais legais da galáxia que infelizmente você não vai conseguir ver.

Bom, acho que já deu pra entender onde eu quero chegar. E, é claro, esses números são baseados em estatísticas em que não só uma pessoa, mas TODOS VOCÊS começam a fumar DE VERDADE. Resumindo: Além de movimentarem LEGAL o mercado e gerarem empregos, ainda vão garantir uma boa queda da competição para vagas de emprego. Afinal, quanto mais você fuma, mais empregos você gera. E quanto mais você fuma, mais chances você tem de acabar abrindo a sua vaga pra alguém.

Quanto mais pessoas fumam assiduamente, mais chances teremos de o nosso organismo evoluir - em um tempo "curto" - pra ficar mais resistente

Se você é crente, desencana desse ítem. Evolução não é com vocês.

Enfim, se a raça humana não for ERRADICADA DE VEZ (o que TAMBÉM seria um ponto positivo, apesar de não gerar empregos), nossos descendentes lááá do futuro (o "lááá" foi pra frase não ser tão redundante) terão um pulmão mais resistente, por exemplo. Ou NÃO terão um pulmão, o que seria melhor ainda. Aproveitem pra beber mais, quem sabe a gente fique sem fígado também. E aproveitem também pra parar de dar o ... ah, não adianta, tarde demais pra pedir por isso. A gente vai continuar tendo cu no futuro. Bom, ao menos esse assunto nos leva à próstata (um dia eu ainda vou registrar o termo ambiguidade no meu nome), o que nos faz lembrar que, futuramente, nosso órgão reprodutor vai criar uma resistência ao cigarro. É isso mesmo: Nada de virar um broxa! Provavelmente ficaremos eretos 100% do tempo, espero que as mulheres ainda façam sexo até lá.
Quanto mais você fuma, mais chances de trazer seguidores você tem
  
Ou ao menos você forma os fumantes passivos, é só fumar pra caralho perto de alguém em ambiente fechado.
Fumantes DESAFIAM A LEI!!!!!!!!1

Cara, existe uma lei que PROÍBE você de fumar em alguns locais - a lei anti-fumo. O governo simplesmente não quer que você fume mas não pode te proibir disso, ou seja: Te proíbem de fumar onde eles podem ter argumentos mais... convincentes. Então, toda vez que você puxa um cigarro, um cara da lei tem uma diarreia. Eles não podem contra você. NÃO É DEMAIS?????///?////???/??

FUMAR É SE VINGAR CARA!!!!!!!1111111

Fumantes, definitivamente, são a salvação do mundo


Alguns são viciados em sexo, totalmente compreensível. Outros em álcool, eu mesmo não dispenso uma cerveja (até porque ela pode vir junto com o vício anterior). Tem gente viciada em música, cinema, séries... até aí tudo bem. Aí chega um cara e diz que seu vício é uma bagaça que te transforma em uma usina de... carvão de enxofre. Até o vício de comer merda ou de torcer pros curintcha tem uma explicação que te faz perceber que "até que faz sentido".

Porra, quem diria!? Como é fácil salvar o mundo. Basta inventar algo que te permita fazer fumaça e ficar fedendo. É tão genial que chega a ser imb... digo, é tão imbecil que chega a ser genial. Traz STATUS, ainda por cima. Fumantes são como árvores: Absorvem a poluição e geram coisas melhores à partir dela. E não adianta, por mais que você tente desmatar a Mata Atlântica, sempre existirá um argumento coerente pra deixar ela lá.

Ou seja: Melhor que fumante só fumante que planta árvores.




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