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O Náufrago


Nirilberto de Jesus. Este era o cara. Um verdadeiro bon vivant. Funcionário de uma grande multinacional, Jesus (como era conhecido na empresa) se gabava de levar uma boa vida, ter belas mulheres, dinheiro, um bom carro e muita tendência para a solidão. Tinha sempre acompanhantes, mas nunca companhias.


Jesus tinha programado suas férias, faria um cruzeiro pelo litoral do mar vermelho. Há anos ele programava algo assim. Chega de férias no campo ou na praia. Agora ele iria passar seu precioso tempo em alto mar, conheceria mulheres interessantes e homens de negócios. Aos homens ele diria: Jesus estará sempre com você. Com as mulheres, usaria o trocadilho de sempre: "deixe Jesus penetrar na sua vida". Ridículo, mas surtia efeito...



Como todo homem abastado, Jesus não sabia arrumar casa, não passava as prórpias roupas e mal sabia dar nó em gravata, mas se preparou para o cruzeiro como um messias para o dilúvio.
Chegado o grande dia, Jesus se aboletou de sua cabine e lá estava ele, pronto para partir em sua grande aventura... Fotos, bebedeiras, farras, orgias...



Jesus aproveitou cada instante como se fosse o último, até que pego por uma tempestade inesperada enquanto tirava fotos no convés, caiu em alto mar e viu seu navio se afastar sem sentirem sua falta. Triste fim para um homem que só queria curtir solitariamente suas férias. Mas Jesus sempre foi obstinado. Viu atonitamente uma ilha vários metros à frente. Nadaria até ela e se seguraria de todas as maneiras em algum fio de esparança para sair vivo daquela. Nadou, perdeu as forças, mas chegou ao seu destino quando o dia já estava amanhecendo. Exausto, Jesus agradeceu ao pai por ter conseguido sobreviver. Agora vinha a pior parte: o que fazer sozinho em uma ilha totalmente desconhecida?



Jesus meditou, se acalmou e tomou uma decisão: não seria vencido tão facilmente. Filho de carpinteiro que era, construiria sozinho sua cabana, multiplicaria os peixes se preciso fosse para ter o que comer e esperaria. Esperaria pacientemente algum socorro.



Trabalhou como um mouro, construiu com cipós e pedaços de árvores sua cabana. Sentou-se e contemplou seu trabalho. Nunca usara tanto os músculos. Mas não se abateu, sabia que algo faltava: recolheu água da chuva e frutas para se alimentar. Percorreu a margem da ilha, pois parecia ser de uma floresta fechada e não queria perder o contato visual com o mar, caso algum navio aparecesse. Por isso não se deu ao
trabalho de explorar o local.



Jesus sentiu o corpo dilacerado, mas não sabia quanto tempo iria permanecer naquela ilha. Teria que racionar água e comida por dias, talvez meses ou anos. Lembrou-se de Tom Hanks, este pelo menos tinha a companhia de Wilson. Mas Jesus sempre foi solitário, recusava-se a se prender.



Limpou como uma doméstica seu novo lar, deixando a impressão que ali moraria pelo resto da vida, então fez tudo o que nunca fizera em sua própria casa.
Vencido pelo cansaço, Jesus deitou-se à entrada da cabana em um estrado feito de folhas e caiu em sono profundo, faminto e sem esperança. Dormiu, dormiu e dormiu. Dormiu tanto que nem percebeu a chegada de um iate que fazia um tour pelo local. Eram turistas procurando um lugar reservado para uma farra. O iate atracou, olharam para aquele corpo estendido e o reconheceram: "Este não é aquele cara que estava com a gente no navio?" "Sim, é ele mesmo. Vamos embora, ele não gosta de ser incomodado...". "É, acho que ele estava procurando justamente um lugar solitário para se encostar".



Se foram para outro lugar, deixando Jesus deitado quase desfalecido. E Jesus perdeu o melhor do cruzeiro: uma festa que acontecia do outro lado da ilha...

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A Balada


Priscila se olhava no espelho pela décima quinta vez aquela noite. Conferiu com dedicada atenção se estava tudo em ordem: a densa sombra negra que lhe acentuava a cor dos olhos; o blush
 brilho, cujo poder de transformar os finos lábios em um pedaço de carne extremamente suculento e desejável ela superestimava; o pó-de-arroz, marcando-lhe ainda mais as maçãs do rosto. Tudo deveria estar perfeito – seria mais uma noitedaquelas.

Olhou para o antigo relógio sobre a penteadeira com uma expressão de ansiedade. Já se passava da meia-noite. “Onde estará Verônica, que nunca chega?” A melhor amiga combinara de buscá-la às 21h, e até agora nada. Priscila cruzava os braços meio consternada, como quem já se cansou até de ficar brava. Suspirava, e cada suspiro parecia aumentar-lhe a agonia.

De repente ouve-se palmas vindas do portão. “Verônica, finalmente”, comemorou a menina. Então correu até o armário, pegou a imensa bolsa prateada e, ainda antes de abrir a porta do quarto, olhou-se mais uma vez no espelho. “É hoje”, disse baixinho, enquanto conferia o caimento do vestido em meio a um sorriso quase sensual. A meta estava bem definida: seduzir Pedrão, melhor amigo de Marcos, para que este finalmente perceba aquilo que está perdendo. As mulheres e suas obscuras táticas de conquista.

Enquanto Priscila fechava a porta do quarto, a surpresa: “onde é que a senhorita pensa que vai, mocinha?”, bradou-lhe o pai, olhando sério sob os óculos de meia-lua. “Não quero saber de filha minha saindo essa hora da noite com um marmanjo qualquer”. A moça tentou justificar, apavorada, dizendo que não era nenhum marmanjo e sim Verônica. O velho, porém, parecia irredutível: “eu não criei filha minha para entregar de mão-beijada a qualquer um, não”.

Ela teve um sobressalto. O medo de antes tinha se transformado em ódio. De mão-beijada? Quem aquele cara pensava que era para falar assim dela? Priscila tomou-se de uma raiva que nunca havia sentido antes. Sentia o sangue subindo à cabeça, corando-lhe a face e as orelhas. “De mão-beijada, uma ova, velho safado”, pensou, sem coragem de dizer. Então ela parou, respirou fundo e, com uma calma quase cínica, falou: “não tem nenhum homem na jogada, papai. Eu vou sair com a Vêro”. Depois segurou delicadamente a mão do velho e puxou-o em direção à porta.

Ao entrar na sala, encontraram a mãe sentada no sofá, tricotando. Quando viu os dois passando de mãos dadas a mulher teve um estranhamento. Sabia que aqueles dois não estavam tendo ultimamente uma relação muito amigável, e vê-los assim, de mãos dadas dentro de casa, era anormal. Perguntou, com aquela voz de quem tem medo de ouvir a resposta, “que é que vocês dois estão aprontando?” Seguiram-se segundos de tenso silêncio. Como ninguém respondesse, a mulher tornou a falar, desta vez com mais convicção: “ninguém vai me dizer o que é que está acontecendo”?

A dupla trocou olhares indagadores. Ambos sabiam no que aquela pergunta poderia levar: ela, Priscila, ficaria sem sair de casa por um mês; ele sem sexo. A mãe não precisava de motivo para estas repressões – bastava que alguma coisa destoasse do comportamento usual da casa. Gostava da rotina, a velha. Os dois que estavam em pé soltaram as mãos e ficaram parados a olhar para o nada. O pai tomou-se de coragem e disse: “fizemos as pazes”.

Priscila sorriu um sorriso amarelo e assentiu com a cabeça. A mãe pareceu se contentar com aquilo e até se arrumou na cadeira. Quando ia emitir um parecer, o velho – que enxergou ali uma possibilidade de se dar bem aquela noite – se adiantou: “e é por isso que eu estava levando a Pri até a porta, para mostrar que está tudo bem e que ela pode sair tranqüila esta noite e voltar só na hora que bem entender”. Todos se entreolharam maliciosamente.

A menina agradeceu ao pai, beijou a mãe no rosto e saiu cantarolando na direção da porta. O velho, safado, tratou logo apagar as luzes e ir buscar um vinho. Voltou da cozinha com duas taças numa mão, uma vela acesa na outra e aquela garrafa de Cabernet Franc safra 78 que guardava a sete chaves já aberta debaixo do braço. Depois de tudo arrumado, copos cheios e vela estrategicamente posicionada, a luz se acende. O casal se vira e vê a filha parada junto a porta que liga o hall de entrada à sala. “Mãe, a pizza que você pediu chegou”, disse ela, começando a chorar.
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Sobre Porcos e Ratos


Eu moro ao lado de um restaurante de luxo. Vejo gente das mais altas classes todos os dias. E eu vejo muitas pessoas necessitadas, também. E vez ou outra eu vejo coisas que, em teoria, ninguém deveria ver. Eu vejo tudo.

O contrário, no entanto, não parece ser verdade. Na maior parte do tempo, eu sou completamente invisível. Eu ouvi falar certa vez sobre pessoas invisíveis virando super-heróis. Já ouvi falar de gente visível simplesmente desaparecendo por aí. Pelo jeito, eu ouço muita coisa. E é hora de contar parte de minha história a vocês, caros ouvintes.

Nasci em uma comunidade rural não muito longe daqui. Minha infância foi tranquila e razoavelmente feliz. Como bom caipira que era, esperava conseguir um pedaço de terra algum dia. Plantar um pouco de milho, talvez soja, talvez cana. Dizem que cana dá dinheiro hoje em dia. Não é de se espantar, de qualquer jeito. Eu mesmo sustento a produção de cana diariamente. Mas eu falava sobre minha casa. Era pequena e humilde - incrível como até hoje se faz essa associação de humildade com pobreza, não? -, mas limpinha. E eu tinha tudo pra crescer na vida. Isso, claro, até aquele memorável dia onde eu entrei em casa e me deparei com o tipo de cena que nunca se esquece.

Enfiaram a faca na barriga de minha irmã. E rasgaram até sair pela garganta.

Soa forte demais pra você? Pra mim também. Forte o bastante pra me deixar seis anos trancado naquela maldita cadeia. Você voltaria pra casa depois de um caso desses? Bom, eu não tenho mais uma casa pra voltar, meus jovens. E é por isso que eu moro aqui, entre a lanchonete e o restaurante.

A vantagem de ser morador de rua perto de estabelecimentos alimentícios é que você não morre de fome. Nós aqui, por exemplo, comíamos todos os dias. Um certo sujeito - tinha nome bíblico, se não me engano - nos alimentava todos os dias, sem pedir nada em troca. Me disseram certa vez que aquele latão que ele despejava na rua todas as noites era o lixo. Acho improvável: alguém com nome bíblico simplesmente não faria uma coisa dessas. "Querem comida?", ele dizia. "Pois comam, seus ratos. Quero ver esse chão limpo quando acordar amanhã!". Serviço de limpeza em troca de alimento. Nada mais justo. E, no fim das contas, não havia motivo pra reclamar, uma vez que as calçadas de nossa maravilhosa cidade serem mundialmente conhecidas por sua limpeza excepcional. Qualquer um lamberia as calçadas de nossa bela capital. Vocês todos fariam isso agora mesmo, se pudessem.

Sim, você está completamente certo, caro amigo. Eu moro na rua há mais de dez anos, agora. E a culpa não é de ninguém senão minha.
Certa vez eu ouvi falar sobre câmeras espalhadas por boa parte das cidades do mundo. Dizem que em Londres você é visto onde quer que você vá. Pelos Porcos, é claro. O que quer que você faça, eles estão olhando. É o tipo de paranóia que amedrontava o mundo nos anos 90. O Arquivo X tornado real.

Não faz muito tempo, eu mal conseguia me manter de pé. Em parte graças ao álcool, devo admitir. Mas os créditos também se devem aos assaltantes que me espancam constantemente aqui onde eu vivo. É uma área perigosa, vê? Não é como se fosse a capital do país. O curioso é que os assaltantes sempre usam o mesmo tipo de uniforme. Andam em carros barulhentos com coisas brilhantes em cima, como se não tivessem ninguém a temer.

Foi justamente nesse dia que me deparei com um sujeito estranho. Não faltava muito pra que eu me matasse, depois que meus dentes foram quebrados a coronhadas e golpes de cacetete. Me espantei quando percebi que ele me via. Deve ser uma das raras pessoas que conversam com os invisíveis. Ou só um maluco. Conversar me fazia falta, de qualquer jeito. Contei a ele essa mesma história. Falei sobre a comida jogada aos Ratos, sobre o esquema de espancamento feito pelos policiais e sobre as várias marcas que eles me deixaram. Me envergonho ao saber que chorei enquanto falava sobre não haver futuro.

O sujeito me parecia interessado no que eu tinha a dizer. Como se precisasse da minha história pra algum trabalho, no mínimo. Não tive tempo de perguntar. Não soube nem seu nome. Tudo aconteceu rápido demais: alguns segundos e aquela maldita viatura veio em minha direção. Os Porcos mais uma vez podiam me ver, e isso, meus caros, é um péssimo sinal.

Fomos abordados como vítimas de assalto, como de costume. O sujeito estranho me parecia calmo de uma maneira incomum. Falava com educação com os dois guardas, apesar de ambos terem saído da viatura apontando armas e rosnando como animais. Os Porcos falavam algo sobre seu cabelo, sua aparência e seus olhos vermelhos. Me lembrei de certa vez, quando ouvi falar sobre anatomia criminal. Me pareceu ficção, na época. Agora me sinto confuso.

O que eu sempre soube, e os porcos nunca descobriram, é que a irritação nos olhos daquele homem só existia graças a gente como eles. Malditos filhos da puta sustentados por uma autoridade doentia que resolvem pisar em outras pessoas simplesmente porque podem.

Não sei o que o camarada disse, mas os guardas o mandaram embora. Eu não tive a mesma sorte. Fiquei pra trás e aguardo meu destino terrível, me esperando em algum matagal vazio após um passeio de viatura.

Me ouçam bem, pelo menos dessa vez: se os porcos têm olhos mecânicos pra fuçar nas vidas de qualquer um, eu e a minha laia não somos muito diferentes. Somos olhos e bocas, sempre atentos nas ruas. Câmeras vivas. Vemos o que acontece de bom e o que há de pior por aí. Sabemos o que vai e o que vem em toda a cidade. Mas somos como um gravador quebrado, sem caixas de som: vemos e ouvimos tudo, mas nossas histórias raramente são escutadas.

...era só isso. Agora, quer lavar o carro, doutor?
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Desperdício


"Acho isso absolutamente fan-tás-ti-co", ouviu a irmã dizer pela quinta vez naquela noite. Ela estava ao telefone, como de costume, totalmente distante do mundo ao seu redor; ele, deitado à cama, olhava a moça com os olhos esbugalhados de quem não acredita no que vê. Mais uma vez, mais uma noite e a cena se repetindo. Dá oito horas, a irmã sai do computador e corre para o celular. Disca um número e chama por Corina, a melhor amiga.

"Me conta tudo, tu-do o que aconteceu na festa de ontem!" Ele sabia de cor as frases feitas da irmã. Era todo dia a mesma coisa. Depois do "alô" sempre vinha um "jura..." seguido de um sonoro "sério?!". Não mudava nada, nunca. Para ele elas sempre conversavam a mesma coisa. Ele só não gostava quando Corina não podia atender e a irmã ligava para a segunda melhor amiga, porque ele podia jurar que elas na verdade não se gostavam. É que o "oi amooor" da irmã soava-lhe muito, muito falso.

No começo, quando a mãe os colocou no mesmo quarto, ele até achou legal. Ouvir as conversas da irmã mais velha, que gurizão não gostaria? Sempre havia a esperança de ela deixar escapar alguma coisa suja que alguma menina do colégio fez. Só que com o tempo aquilo se tornou chato, maçante, repetitivo. Era sempre o mesmo papo, as mesmas pessoas, as mesmas festas. "Como consegue viver numa rotina tão grande", pensava ele. Tinha dias que sua vontade era levantar da cama, arrancar o telefone da irmã e gritar para que todo o mundo ouvisse "levanta e vai viver tua vida, mulher!"

Ele tinha era pena da irmã. Uma pena dura, melancólica. Achava o maior desperdício do mundo aquela vida de intrigas e fofocas que ela levava. O pior jeito possível de se viver a adolescência, pensava. Ele sonhava com o dia em que ela acordaria e diria para si mesma "nossa, onde foi que eu estive esse tempo todo que não vivendo?" Só temia que esse chegasse muito tarde para a irmã que tanto amava.

A vida de verdade estava lá fora, pensava o rapaz. "Cachorros latindo, carros nas ruas, passarinhos voando. A essência de viver é a novidade, é conhecer gente, lugares, coisas -- não ficar parado nunca. Quem não se mexe cria limo, se enche de poeira. Todo dia é dia de mudança, de conhecimento, de crescimento. O ser humano precisa ser um pouco empreendedor de si mesmo, seja lá o que isso signifique. É preciso tentar, enfim. Tentar, e, se não der certo, tentar de novo".

Ele só lamentava não poder botar seus pensamentos em prática: desde o acidente que só conseguia mexer os olhos.
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Equilíbrio

Deparei-me certa vez com um velho de pernas trêmulas, que cambaleava pela rua com o desequilíbrio de quem finalmente se dá conta da velocidade com a qual o mundo gira sob seus pés. Ao me notar no caminho, sorriu com os poucos dentes gastos que lhe restavam, e, com esforço, arrastou-se em minha direção. Acenei-lhe com certo desinteresse e segui meu caminho - a fome pela vida me forçava a caminhar depressa -, mas antes que pudesse me desviar, o homem agarrou-se a mim como a uma oportunidade, me impedindo de ignorá-lo.

"A vida é assim, jovem" - ele disse - "Um dia você caminha com firmeza descomunal, como um tanque de guerra percorrendo uma estrada. Mas o tempo tem suas artimanhas. Hoje meus pés tremem de pânico ao pisar este chão novo, mudado".

Não concordei com suas palavras. Era evidente que o cansaço da vida havia afetado seu juízo e sua capacidade de medir os passos adequadamente. Mas antes que eu pudesse dizer-lhe qualquer coisa, continuou, com a voz enfurecida.

"Vê aquele homem?"

Aquele senhor, com seu manto branco completamente sujo da terra cor-de-sangue da cidade, apontava para um distinto cavalheiro de idade avançada, que trajava um terno fino, um belo chapéu e uma bengala prateada de excelente qualidade.

"Aquele homem possui passos firmes e a experiência de uma vida inteira", respondi ao velho, sem a menor intenção de mascarar minha expressão vitoriosa. Mas seu sorriso ainda estava lá, mais desafiador do que nunca.

"Certamente", falou, "uma vida inteira foi o suficiente para que ele construísse para si um apoio firme e estável. Mas é necessário muito esforço para levá-lo ao chão?"

E, com uma expressão de vitória final, aproximou-se do homem e chutou-lhe a bengala.
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Existem textos em que o título...

Existem textos em que o título, mesmo que pequeno, consegue sintetizar a idéia geral do que está escrito.

Tocou o último acorde com desdém. Não aguentava mais aquilo de treinar, treinar e nunca se apresentar. Queria ação. Queria subir no palco do São Jorge e ver as arquibancadas (ele chamava a platéia de arquibancada) lotadas, todos gritando seu nome: Jo-el, Jo-el!. Mas não. Não podia. Mamãe não deixava. Não queria ver seu lindo filho exposto daquela maneira. Onde já se viu, sujeitar alguém tão novo às intempéries do julgamento popular? Não, ela não ia aguentar aquela agonia. Não ela. Não que não confiasse no talento do filho, mas o histórico de loucura da família a fazia acreditar que aquilo era hereditário, e que uma rejeição diante de centenas, talvez milhares, de pessoas poderia desencadear uma crise que levaria o menino do palco direto para o hospício. Ela não queria perder mais um ente querido para aquele inferno. Não queria todo aquele sofrimento mais uma vez. Seu pai, seu avô, um tio e duas primas estão ou já estiveram lá. Não há espaço para mais um Teodoro Maciel no Sanatório São Miguel.


Joel olhava fixo para o busto de Beethoven sobre o piano. Aquele pequeno, porém imponente artefato de cera estava na família há mais de um século. Sempre ali, sobre o portentoso instrumento, vigiando a recinto e todo aquele que por ventura viesse sob ele estudar. O nome na base, Ludwig Van Beethoven, talhado meticulosamente a mão e coberto com uma fina camada de ouro, não deixava dúvidas que ali jazia um pouco da alma do grande mestre. Não à toa que daquele piano saíram três dos mais conhecidos maestros nacionais, ganhadores de prêmios internacionais e sublimes diretores da Orquestra Sinfônica Nacional. Todos descendentes do Coronel Isaac Maciel, o patriarca da família. Todos estudaram música naquele piano, sob o olhar ao mesmo tempo fraterno e acusador daquele que é considerado um dos pilares da música ocidental.


O olhar do garoto denunciava uma imersão sem precedentes. Era como o olhar de alguém hipnotizado, alheio a tudo e a todos em sua volta, com um foco quase inverossímil num ponto pré-determinado e que ninguém consegue encontrar senão ele mesmo. Fizesse sentido ou não, Joel conversava com Beethoven. “Que faço, ó grão-mestre varonil?” E na mente do rapaz o alemão fazia digressões dignas de um Sócrates no auge da bebedeira. “Meu filho, tudo o que você tem a fazer é aceitar. Aceitar, baixar a cabeça e continuar treinando. Sua hora ainda vai chegar, e, além do mais, mãe é mãe. Ela sabe o que é melhor para você. Enquanto você ainda é novo, deixa-a decidir. Daqui a pouco você fará 18 anos e poderá decidir o que quiser da vida. Por enquanto treine. Treine que você com certeza irá alcançar coisas bonitas”.

A conversa seguiu animadora. Joel fazia questionamentos que Beethoven tinha a resposta na ponta da língua. O velho maestro nem pedia tempo para pensar. Era pá-pum, como se dizia antigamente. E isso fazia o garoto feliz. Conversar com aquele rosto inanimado era sua maior alegria do dia. Era o momento que se sentia mais pronto, mais dono de si. Escutava os conselhos do amigo com a passividade de um padre e o comprometimento de um cão. Depois de ouvir o que o mestre pensava, Joel podia encarar qualquer platéia, podia tocar qualquer peça, podia tentar qualquer variação. Com os conselhos de Beethoven, Joel podia tudo.

Despediu-se do busto beijando-lhe a testa. Para dar sorte, dizia. “Obrigado pelos conselhos, Ludwig Van”, Joel falou baixinho. “O senhor é o único que me entende nessa casa”. Beethoven seguia imóvel, impassível como só uma estátua sabe ser. E, da cozinha, a mãe observava tudo. Viu desde o momento em que o menino se deixou levar pelo cansaço e relaxou nas últimas frases até a hora da mística despedida entre homem e objeto. Às lágrimas, pensou: “Já está louco, o coitado. Onde foi que eu errei? Onde foi que eu errei?”
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