Da Prostituição


Esses dias, ouvi duas senhoras católicas em sua habitual roda de fofoca. Contavam terríveis histórias sobre pessoas que acabaram emaranhadas nas monstruosas teias da prostituição. Falou-se sobre uma certa garota, filha de pais ricos, que fingia ir à faculdade pra rodar bolsinha, e sobre um certo michê que passava quase todos os dias na praia jogando futebol com os amigos e comendo camarão, tudo pago com a venda de seu próprio corpo, claro.

"Ele dizia que vivia bem", dizia uma das senhoras, "Algumas das clientes o levavam pras melhores festas, ele ia pros melhores motéis, ganhava um bom dinheiro e tinha que se preocupar só em manter a beleza. Mas às vezes eu me pergunto: será que isso é mesmo vida?"

Eu sempre quis entender que porra de demonização é essa que existe com uma profissão tão antiga. Uma meretriz é como uma artista - uma musicista, por exemplo. Em troca de algumas horas de sua habilidade de entreter os outros, recebe dinheiro. Nada mais justo, e não há problema algum, há?

...ah, sim. O sexo. Às vezes eu me esqueço que vocês enxergam o diabo em todas as coisas boas da vida. Talvez tenha a ver com aquela idéia grega antiga de miasma. "Aquele que comete o mal é contaminado por ele, e não pode ser limpo enquanto não for levado à justiça e pagar penitência, blá blá blá".

Talvez faça bastante sentido pra vocês. E, olha só, existem até evidências visuais do sexo espalhando o mal! A AIDS, a gonorreia e o cancro mole, por exemplo, são a manifestação de Satã no templo do corpo humano quando se comete o pecado da carne. Certo?

Além disso, algum dia vocês enfiaram na cabeça que sexo e amor são grudados com extrema força, como a perna de um coitado e uma armadilha de urso, por exemplo. Lhes dou alguns exemplos da grande mentira que tal afirmação é: Você não sente amor por sua vizinha, mas quer fodê-la. Do mesmo modo, seu pai não amava sua mãe, seu cachorro não ama as cadelas da rua, o governo não ama nenhum de nós e a galera do sertanejo universitário definitivamente não ama a música. Já por outro lado, curiosamente há a ligação entre o amor e o sexo no caso das doces meretrizes: o sexo lhes traz dinheiro, e todo mundo ama receber dinheiro. Ainda mais depois de uma noite de trabalho duro.

Dito isso, acho que podemos analisar melhor o caso do tal michê. O homem gosta de seu emprego, dos lugares que visita, do salário que ganha e do tempo livre que tem pra ir à praia. O que faz dele, possivelmente, um sujeito feliz. Logo, por que não dizer que ele vive... e bem?

Do outro lado, temos duas velhas que gastam a tarde, em plena segunda-feira, falando mal da vida dos outros talvez porque não existe nada de interessante pra se falar da própria.

E aí às vezes eu me pergunto: isso lá é viver?

Percebam, seus vermes malditos, que a noção de prostituição forçada não foi sequer citada no texto.



Autor : L. Sena ~

Artigo Da Prostituição Publicado Por L. Sena Na data de 5 de mar. de 2012. Foram Feitos 0 Comentários: Para o Artigo Da Prostituição
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