Mostrando postagens com marcador Pensamentos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pensamentos. Mostrar todas as postagens

40 Minutos

Eram sete da manhã, quando a terrível verdade me atingiu quase como um tiro no joelho. Durante pouco menos de uma hora eu estive por minha conta, sem nenhuma direção para casa, como um Rolling Stone. "Siga em frente", me disse um sábio certa vez, "com esperança em seu coração, e você nunca andará sozinho". Achei incerto, mas acreditei. Me lembro de termos caminhado pela madrugada da Califórnia, ou talvez no Texas, certa vez. Foi quando conheci sua fixação sexual por lésbicas e acidentes de carro. Mas isso é história pra algum outro dia.

O ponto onde eu quero chegar começa ás seis  e vinte, em uma rua fria de uma localidade qualquer. Eu atravessava a cidade. á minha volta, algumas poucas pessoas com expressão vazia, destruídas após uma noite difícil. Andavam como robôs, e seus olhos não fitavam as ruas ou o céu. Era como se cada uma daquelas pessoas tivesse os olhos voltados para dentro, e fitasse a si mesmo. Foi aparentemente, o último suspiro da cidade que então, adormeceu. Aquelas poucas pessoas passaram lentamente, e, aos poucos, desapareceram. Mas não eram mais eles a atrair minha atenção. Eu, cercado pelos muros de concreto, vi, de relance, um breve sinal de vida. Luz e calor no meio da noite vazia.

Eles se moviam quase como ratos, olhando em volta repetidas vezes, como se quisessem se certificar que os predadores se foram todos. Como cães, farejavam o lixo, roendo qualquer coisa que lhes parecesse comestível. A distância não me deixava ver as expressões em seus rostos. Desci as escadas. Dois policiais separavam as pessoas "de bem", que conversavam cansadas, das pessoas "da rua". Me lembro de ter visto duas crianças brigando como hienas por um agasalho. Em volta deles, outras crianças andavam e faziam pose, porque sabiam que aquela ali era a hora delas. Durante o dia eles todos são obrigados a aguentar abusos por parte dos "cidadãos de bem", que nem sequer tem a coragem de os olhar como pessoas. São gente invisível, exceto quando as pessoas querem reclamar. Me lembra aquele negócio da escravidão. "Ah, mas eles não tem alma, cara, não tem problema judiar". Pois bem. Eles aguentaram pacientemente, e agora estavam ali, triunfantes. Agora éramos nós os desprotegidos. Como abutres, eles circulavam famintos e cheios de rancor sobre nossas cabeças, esperando que um boi mais estúpido se afastasse da boiada. Admirei aquilo por algum tempo. Não, sair dali não era problema. A luz refletida no cascalho era quase uma barreira contra o mundo exterior, protegendo as pessoas comuns dos urubus que rondam a noite. 

Saí dali. Aquela proteção me incomodava. E me impedia de ver a coisa toda como eu queria. A fria brisa noturna acabava com qualquer sensação de segurança. É o mal da modernidade: Todos dizem que estão preparados pra enfrentar o mundo, deus e o diabo, mas ainda vivem numa maldita bolha. De qualquer jeito, eu sempre me dei bem com moradores de rua. Não sei se eles conseguem enxergar alguma coisa diferente nos meus olhos opacos e sem vida, se eles sabem que, no fundo, eu tenho algo como eles, se eles vêem que eu consigo enxergá-los (e, por trás deles, suas histórias e angústias) ou se eu simplesmente sou alguém que nem vale á pena perder tempo assaltando. Tanto faz. O movimento dos abutres me entediava, pois eles não estavam ali para viver, e sim pra assustar os vivos. Se contentavam em ser meros fantasmas por poucas horas. Me afastei dali.

...Um homem jazia no chão. As duas mãos cobriam a face, como se até na morte ele se escondesse. Outro gritava, com uma garrafa na mão, e apontava para o falecido. Não fazia questão alguma de fazer sentido, e nem se dirigia a pessoa alguma. Com os anos de experiência, aquele homem já sabia que isso era inútil. Para seus olhos, as pessoas não eram pessoas, mas sim espectros etéreos incapazes de percebê-lo. Não, seus gritos não eram nenhum alerta. Eram só desespero solitário, a ponto do homem usar de sua linguagem mais particular para exteriorizar a angústia. Urros e grunhidos ecoavam pela manhã vazia. Atrás dos prédios, o sol nascia, indiferente e frio.

...Outro homem atravessa a rua, sozinho. Por um breve momento seus olhos se desviam do negro desespero e encontram os meus. É o suficiente. Instantaneamente, ele abriu um sorriso. Os olhos, vermelhos, demonstravam um cansaço excessivo. A baba branca e espessa escorria do canto de sua boca e pingava em sua camisa, mas ele ainda sorria, satisfeito. Sabia que havia sido notado, e que não seria enxotado como um cão.

"A chave", disse ele. "Perdi a chave". Eu nada podia fazer, mas ele ainda se repetiu algumas vezes, como se esperasse algum ato divino do herói que o havia notado. Não havia nada a ser feito, eu não podia ajudar. Como se notasse minha inquietação, ele mais uma vez sorriu, deixando a chave e o desespero de lado. "Pra onde 'cê vai?", perguntou. Coçava a cabeça com seus dedos cobertos de baba, e ainda me olhava com alegria.

"Pra lugar nenhum". A risada simples se tornou então uma gargalhada amigável. "Então você não tem como se perder", disse ele, quase num momento de lucidez. "Não tem como se perder. E eu aqui sem a chave. Esperto é você, que não precisa delas".

...

Uma família de moradores de rua dormia no que, se me lembro bem, era um posto de gasolina abandonado. O contraste da cena seguinte me fez parar por vários minutos e observar o desenrolar daquilo tudo. De um lado da rua, uma mulher saía de casa. Os olhos verdes e vivos eram janelas para seus sonhos, seus planos, sua esperança. Passou por mim com o ar de quem está pronta para um novo dia, pronta para seguir em frente com sua vida. Pouco depois, um homem á minha frente lentamente despertava. Não tinha a menor vontade de se levantar, ou pelo menos era o que o seu olhar vazio me dizia. Talvez preferisse nem ter acordado. Talvez nem mesmo soubesse se estava vivo ou morto. Foi só quando o resto deles acordou que o primeiro homem mostrou algum sinal de esperança. Todos então conversavam, e, apesar de seus olhos ainda parecerem tristes, eles agora possuíam uma frágil esperança.

...

Andando entre uma rua e outra, esperando matar o tempo, uma senhora me para:

"Bom dia, filho. Você quer que eu ponha seu nome na nossa lista de oração de hoje?"
"Agradeço a gentileza, mas não, não quero."
"Mas vai te fazer bem. Jesus vai resolver seus problemas de família, de dinheiro, de amor."
"Não tenho nenhum desses problemas. Não quero sua oração."
"Mas você precisa de Jesus. Todos precisam de Jesus."
"Eu sou ateu, senhora. Não preciso de Jesus, nem da sua oração."
"Ah, mas aí é que você precisa da oração, mesmo! Não quer colocar o seu nome lá?"
"Olha. Você tá vendo aquele homem? Aquele gritando sozinho, com o outro caído do lado. Ele precisa da sua oração. Ele precisa da sua atenção. Vê aquelas pessoas deitadas com os cobertores? Eles precisam da sua oração. Por que você quer a mim quando só precisa olhar pro lado pra encontrar gente necessitada de verdade? Eu não quero a sua oração, não preciso de Jesus e me incomodo com você."

Passei uma hora conhecendo aqueles que se escondem do mundo. Aqueles que você humilha durante o dia porque acha que acordou cedo demais e brigou com a mamãe. Aqueles que você trata como simples pestes que te atazanam durante a parada no semáforo, por motivos inúteis. Pude ver a dor solitária e reprimida daqueles que você trata como sacos de pancada morais. Mas o mais terrível não é ver uma pessoa acordar desejando estar morta. O que é realmente assustador é de repente reparar que isso acontece todos os dias, e vocês são tão covardes que simplesmente fingem que essas coisas são invisíveis.

Não acho que pra mim a história fique completa sem citar o que se passou antes e o que se passou depois. Não que eu me importe com isso. De qualquer modo, só a Madrugada caberia aqui.
CONTINUE LENDO
 

Avenida Brasil


Às vezes você simplesmente sabe que as coisas vão ficar esquisitas. Todos os sinais que o mundo te dá apontam pra isso. É o que acontece quando você entra em um ônibus quase vazio, exceto pelo motorista com metade do rosto queimado, o cobrador e uma passageira, ambos anões, e uma albina careca. Você desce no meio de um lugar completamente desconhecido e vê um cego na faixa de pedestres, duas velhas - uma tremendo e a outra babando - caminhando, e todas as lojas estão fechadas. E, diabo, as pessoas estão todas comendo peixe e celebrando um sacrifício humano de dois mil anos atrás!

Quando aquele sujeito apareceu, eu sabia que estava pra acontecer. Quer dizer, ele era provavelmente a única pessoa normal ali, no meio do Mundo Bizarro. Com certeza, tinha algo de errado. Pois bem, esses são os acontecimentos que se seguiram:

Em primeiro lugar, veio a faca. Não faz muito sentido mostrar uma faca a um cego, de qualquer jeito, mas os dois atravessaram a rua.

"Tu perdeu, mané", disse o homem. "Vamo ali comigo, quietinho, quietinho".
"Mas... o que você quer? É dinheiro?"
"Quietinho, eu disse. Só quero ver a carteira entrando no beco".


Andaram quase como dois irmãos. As pessoas aprendem a fingir na hora do sufoco, de qualquer jeito. Pelo menos aqui. Já era de se esperar, não? Quem são os nossos heróis, no fim das contas?

Temos Pedro Malazartes, que faz de um urubu adivinhão e um punhado de mentiras seu ganha-pão. João Grilo, que foge até do diabo com enganação e esperteza. De manhã vemos no jornal como um gordinho carismático enrolou meio Brasil com lorotas bem contadas e viveu como um rei. Depois do almoço, torcemos pra que Seu Madruga consiga mais uma vez adiar o aluguel. No cinema, ouvimos a história de forasteiros rebeldes, que torcem qualquer lei com suas sub-metralhadoras. Sua violência depois é justificada porque ele "fazia o bem". De noite, tem o maldito Pica-Pau. Baita sujeitinho esperto. Colocamos as crianças pra dormir contando como um gato falante com botas matou um gigante usando de sua lábia e vamos, por fim, orar ao Senhor, o mesmo que pede o sacrifício de filhos só por pirraça. Dá pra imaginar o Altíssimo descendo de seu enorme trono e dizendo "Íáááá! Pegadinha do Malandro!"

O fato é que, nas telas e nos contos de fada, os fins sempre justificam os meios. Fora delas, os meios causam uma baita duma frescura. Entra aquele negócio do "politicamente correto", de você não poder chamar um negro de negro ou um viado de viado. Acho que todo mundo já pensou em mandar esses cuzões todos tomarem no meio de alguma coisa, de qualquer jeito.

Você vê, o racismo mesmo, ele tá mais nos ouvidos do cara do que na boca de quem diz. Quer dizer, o cara diz "e aí, bicha" e a bicha se ofende? Quer dizer, alguém OBRIGA o cara a ser bicha, pra ele ficar tão sentido?

O que me faz pensar naquela faculdade pra negros que criaram agora. Faculdade Zumbi dos Palmares, né? Eu sei lá o nome. Tudo começou com as cotas - o governo dizendo que os negros não tem capacidade pra competir com o resto do mundo. Depois, essa faculdade-quilombo, dizendo que eles precisam de toda uma estrutura de ensino especial. Qual o próximo passo? Banheiros separados? Apartheid? Vocês são todos uns cuzões, porra! E ainda querem dizer que eu é que sou o racista? Cuzões, cuzões, cuzões!

Ah, o cego? Voltou dez minutos depois, com a vareta quebrada, sem os óculos escuros e com a carteira do assaltante. Me olhou com um sorriso esperto no rosto. Aquele de quem sabe que você percebeu a coisa toda. Examinou a carteira, guardou no bolso e riu.

"Ah, onde esse país vai parar? Até os assaltantes são manés hoje em dia, maluco. Cair no conto do cego? Pffff! Fica na paz, irmão".

Agora, o que eu realmente gostaria de saber é como os anões fazem pra puxar a cordinha caso estejam sozinhos no ônibus.
CONTINUE LENDO
 

Desperdício


"Acho isso absolutamente fan-tás-ti-co", ouviu a irmã dizer pela quinta vez naquela noite. Ela estava ao telefone, como de costume, totalmente distante do mundo ao seu redor; ele, deitado à cama, olhava a moça com os olhos esbugalhados de quem não acredita no que vê. Mais uma vez, mais uma noite e a cena se repetindo. Dá oito horas, a irmã sai do computador e corre para o celular. Disca um número e chama por Corina, a melhor amiga.

"Me conta tudo, tu-do o que aconteceu na festa de ontem!" Ele sabia de cor as frases feitas da irmã. Era todo dia a mesma coisa. Depois do "alô" sempre vinha um "jura..." seguido de um sonoro "sério?!". Não mudava nada, nunca. Para ele elas sempre conversavam a mesma coisa. Ele só não gostava quando Corina não podia atender e a irmã ligava para a segunda melhor amiga, porque ele podia jurar que elas na verdade não se gostavam. É que o "oi amooor" da irmã soava-lhe muito, muito falso.

No começo, quando a mãe os colocou no mesmo quarto, ele até achou legal. Ouvir as conversas da irmã mais velha, que gurizão não gostaria? Sempre havia a esperança de ela deixar escapar alguma coisa suja que alguma menina do colégio fez. Só que com o tempo aquilo se tornou chato, maçante, repetitivo. Era sempre o mesmo papo, as mesmas pessoas, as mesmas festas. "Como consegue viver numa rotina tão grande", pensava ele. Tinha dias que sua vontade era levantar da cama, arrancar o telefone da irmã e gritar para que todo o mundo ouvisse "levanta e vai viver tua vida, mulher!"

Ele tinha era pena da irmã. Uma pena dura, melancólica. Achava o maior desperdício do mundo aquela vida de intrigas e fofocas que ela levava. O pior jeito possível de se viver a adolescência, pensava. Ele sonhava com o dia em que ela acordaria e diria para si mesma "nossa, onde foi que eu estive esse tempo todo que não vivendo?" Só temia que esse chegasse muito tarde para a irmã que tanto amava.

A vida de verdade estava lá fora, pensava o rapaz. "Cachorros latindo, carros nas ruas, passarinhos voando. A essência de viver é a novidade, é conhecer gente, lugares, coisas -- não ficar parado nunca. Quem não se mexe cria limo, se enche de poeira. Todo dia é dia de mudança, de conhecimento, de crescimento. O ser humano precisa ser um pouco empreendedor de si mesmo, seja lá o que isso signifique. É preciso tentar, enfim. Tentar, e, se não der certo, tentar de novo".

Ele só lamentava não poder botar seus pensamentos em prática: desde o acidente que só conseguia mexer os olhos.
CONTINUE LENDO
 

Equilíbrio

Deparei-me certa vez com um velho de pernas trêmulas, que cambaleava pela rua com o desequilíbrio de quem finalmente se dá conta da velocidade com a qual o mundo gira sob seus pés. Ao me notar no caminho, sorriu com os poucos dentes gastos que lhe restavam, e, com esforço, arrastou-se em minha direção. Acenei-lhe com certo desinteresse e segui meu caminho - a fome pela vida me forçava a caminhar depressa -, mas antes que pudesse me desviar, o homem agarrou-se a mim como a uma oportunidade, me impedindo de ignorá-lo.

"A vida é assim, jovem" - ele disse - "Um dia você caminha com firmeza descomunal, como um tanque de guerra percorrendo uma estrada. Mas o tempo tem suas artimanhas. Hoje meus pés tremem de pânico ao pisar este chão novo, mudado".

Não concordei com suas palavras. Era evidente que o cansaço da vida havia afetado seu juízo e sua capacidade de medir os passos adequadamente. Mas antes que eu pudesse dizer-lhe qualquer coisa, continuou, com a voz enfurecida.

"Vê aquele homem?"

Aquele senhor, com seu manto branco completamente sujo da terra cor-de-sangue da cidade, apontava para um distinto cavalheiro de idade avançada, que trajava um terno fino, um belo chapéu e uma bengala prateada de excelente qualidade.

"Aquele homem possui passos firmes e a experiência de uma vida inteira", respondi ao velho, sem a menor intenção de mascarar minha expressão vitoriosa. Mas seu sorriso ainda estava lá, mais desafiador do que nunca.

"Certamente", falou, "uma vida inteira foi o suficiente para que ele construísse para si um apoio firme e estável. Mas é necessário muito esforço para levá-lo ao chão?"

E, com uma expressão de vitória final, aproximou-se do homem e chutou-lhe a bengala.
CONTINUE LENDO
 

Existem textos em que o título...

Existem textos em que o título, mesmo que pequeno, consegue sintetizar a idéia geral do que está escrito.

Tocou o último acorde com desdém. Não aguentava mais aquilo de treinar, treinar e nunca se apresentar. Queria ação. Queria subir no palco do São Jorge e ver as arquibancadas (ele chamava a platéia de arquibancada) lotadas, todos gritando seu nome: Jo-el, Jo-el!. Mas não. Não podia. Mamãe não deixava. Não queria ver seu lindo filho exposto daquela maneira. Onde já se viu, sujeitar alguém tão novo às intempéries do julgamento popular? Não, ela não ia aguentar aquela agonia. Não ela. Não que não confiasse no talento do filho, mas o histórico de loucura da família a fazia acreditar que aquilo era hereditário, e que uma rejeição diante de centenas, talvez milhares, de pessoas poderia desencadear uma crise que levaria o menino do palco direto para o hospício. Ela não queria perder mais um ente querido para aquele inferno. Não queria todo aquele sofrimento mais uma vez. Seu pai, seu avô, um tio e duas primas estão ou já estiveram lá. Não há espaço para mais um Teodoro Maciel no Sanatório São Miguel.


Joel olhava fixo para o busto de Beethoven sobre o piano. Aquele pequeno, porém imponente artefato de cera estava na família há mais de um século. Sempre ali, sobre o portentoso instrumento, vigiando a recinto e todo aquele que por ventura viesse sob ele estudar. O nome na base, Ludwig Van Beethoven, talhado meticulosamente a mão e coberto com uma fina camada de ouro, não deixava dúvidas que ali jazia um pouco da alma do grande mestre. Não à toa que daquele piano saíram três dos mais conhecidos maestros nacionais, ganhadores de prêmios internacionais e sublimes diretores da Orquestra Sinfônica Nacional. Todos descendentes do Coronel Isaac Maciel, o patriarca da família. Todos estudaram música naquele piano, sob o olhar ao mesmo tempo fraterno e acusador daquele que é considerado um dos pilares da música ocidental.


O olhar do garoto denunciava uma imersão sem precedentes. Era como o olhar de alguém hipnotizado, alheio a tudo e a todos em sua volta, com um foco quase inverossímil num ponto pré-determinado e que ninguém consegue encontrar senão ele mesmo. Fizesse sentido ou não, Joel conversava com Beethoven. “Que faço, ó grão-mestre varonil?” E na mente do rapaz o alemão fazia digressões dignas de um Sócrates no auge da bebedeira. “Meu filho, tudo o que você tem a fazer é aceitar. Aceitar, baixar a cabeça e continuar treinando. Sua hora ainda vai chegar, e, além do mais, mãe é mãe. Ela sabe o que é melhor para você. Enquanto você ainda é novo, deixa-a decidir. Daqui a pouco você fará 18 anos e poderá decidir o que quiser da vida. Por enquanto treine. Treine que você com certeza irá alcançar coisas bonitas”.

A conversa seguiu animadora. Joel fazia questionamentos que Beethoven tinha a resposta na ponta da língua. O velho maestro nem pedia tempo para pensar. Era pá-pum, como se dizia antigamente. E isso fazia o garoto feliz. Conversar com aquele rosto inanimado era sua maior alegria do dia. Era o momento que se sentia mais pronto, mais dono de si. Escutava os conselhos do amigo com a passividade de um padre e o comprometimento de um cão. Depois de ouvir o que o mestre pensava, Joel podia encarar qualquer platéia, podia tocar qualquer peça, podia tentar qualquer variação. Com os conselhos de Beethoven, Joel podia tudo.

Despediu-se do busto beijando-lhe a testa. Para dar sorte, dizia. “Obrigado pelos conselhos, Ludwig Van”, Joel falou baixinho. “O senhor é o único que me entende nessa casa”. Beethoven seguia imóvel, impassível como só uma estátua sabe ser. E, da cozinha, a mãe observava tudo. Viu desde o momento em que o menino se deixou levar pelo cansaço e relaxou nas últimas frases até a hora da mística despedida entre homem e objeto. Às lágrimas, pensou: “Já está louco, o coitado. Onde foi que eu errei? Onde foi que eu errei?”
CONTINUE LENDO
 

Educação Infantil


Já percebeu como hoje em dia toda criança ‘maltratada’ vira rebelde? Vários especialistas em educação e psicólogos dizem que não se pode bater em uma criança porque ela pode ficar com trauma e se revoltar contra os pais quando crescerem ou algo assim. Devemos ser bons pais, tratar nossos filhos com extremo cuidado e não dar aquelas ‘palmadinhas básicas’ para não formarmos futuros ‘serial killers’. Será? Todo esse papo pode até ser ‘bonitinho’ e nos ajuda a imaginar uma sociedade melhor e sem violência para os nossos filhos, netos e bisnetos. Mas todo mundo sabe que na prática isso é bem diferente.

E se teu filho for uma peste que faz bagunça, barulho e escândalo em todo lugar que vai? Tu vai falar o quê pra ele? ‘Meu filho, não faça isso, isso é muito feio. Você deveria se comportar melhor, pois se você for malvado o papai noel não lhe dará presentes no natal.’ Primeiro que, se o moleque é uma peste, ele nunca vai escutar você falando um monte de baboseira dessas! Vai cuspir na tua cara e mandar você larga-lo. E tu vai ficar com que cara? Se o pivete faz a maior baderna quando tuas visitas estão na tua casa? Vai olhar pro menino e comentar: ‘Olha mulher, tão lindo ele cagando no meio da sala!’ Não podemos ser ridículos.


Não estou defendendo a violência contra as crianças, longe disso. Nem aqueles pais doentes que espancam seus filhos por causa de alguns erros. Mas umas palmadinhas na hora certa não deixam ninguém revoltado. Eu mesmo apanhei muito quando era pequeno e não me revoltei. Pelo contrário, entendo o porquê de todas as bofetadas que levei (que não foram poucas) e ainda acho que, em alguns casos, foi pouco. Lembro de um dia em que me escondi atrás da porta do banheiro e deixei toda a minha família pensando que eu tinha sido raptado, e tudo por não querer tomar banho. Quando eu saí do meu esconderijo não fizeram nada, só agradeceram a Deus porque eu estava bem. Outra vez fiz minha mãe queimar o dedo porque fiquei enchendo o saco pedindo 1 real para ir jogar vídeo game, ela pegou a chinela e arremessou na minha direção, porque, quando eu a vi tirando a chinela do pé, disparei na direção oposta. Acertou bem nas minhas pernas e eu caí estatelado no meio da sala. Vários parentes estavam na minha casa e não houve problema nenhum porque eles riram daquela cena. Cresci, e amo minha mãe mais do que tudo no mundo.


Agora se alguns pensam que a ‘psicologia infantil’ resolve tudo aí fica difícil. Por isso que só o que se vê nos noticiários são filhos matando os pais por causa de dinheiro. Educar um filho não é fácil e certas babaquices e mitos divulgados só ajudam complicar essa tarefa. Que se danem os defensores da Super Nanny. É lógico que o que ela diz ajuda, mas seguir rigidamente os seus conselhos pode não ser recomendável. A vida real não é um programa onde se podem editar cenas. É muito diferente disso.


CONTINUE LENDO
 

Somos todos mercenários


Outro dia vi um grupo de pessoas discutindo sobre a vida acadêmica. Tentavam chegar a um consenso sobre se ela é ou não o melhor caminho para o sucesso. Reclamavam, claro, do salário de artistas e jogadores de futebol. Aparentemente, é injusto que tais algozes da sociedade recebam tão bem enquanto pessoas de bem que estudaram suas vidas inteiras, como médicos, policiais, professores e funcionários públicos, não o fazem.

 Percebam, caros compatriotas, que o ponto aqui é exatamente a definição de sucesso. O que pude notar é que, para a maioria das pessoas, "sucesso" é um conceito bem simples, e pode ser medido pela sua capacidade econômica, além, claro, do modo como você é visto pela sociedade. E a vida, ao que parece, é nada mais do que uma grande busca pela honra, pela glória, pelo júbilo e pelo fucking sucesso.

Acontece na sua vida profissional - são irrelevantes seu talento e suas realizações enquanto você continuar morando num barraco enlameado e o único rei que você conhecer de perto for um urubu. O mundo profissional - lhe foi dito pelos Grandes Profetas nos Outdoors - é uma arena gigantesca, onde seres humanos devem, obrigatoriamente, se degladiar para atingir a glória. Só pode haver um, já disseram em Highlander.

Também é assim nas relações pessoais: todos sabem que é burrice desperdiçar valiosas e não-renováveis doses de amor, por exemplo, caso não haja nenhuma garantia de retorno. Até a sua estúpida relação com seus deuses é assim! "Faço o bem em troca de um apartamento no Paraíso, com vista pro mar, mobiliado com itens de ouro e povoado por concubinas virgens que obedeçam o meu comando."

Nos últimos tempos, a busca pela segurança tem ultrapassado os limites do bom senso de tal modo que nós, cidadãos comuns, nos transformamos em criaturas covardes, incapazes de dar novos saltos sem uma corda para nos segurar. Nós dizemos "eu não voto, não confio em governos" porque não podemos sustentar a chance de estarmos errados. Um assassino que falhe, no fim das contas, não deveria esperar por qualquer pagamento.

Percebam, no entanto, caros muppets, que status social e poder de compra nada tem a ver com merecimento. Nunca tiveram. Reis eram reis porque nasceram assim - e príncipes mantém o seu "sangue real" independente de qualquer estupidez, como, digamos, se vestir de nazista em festas da high society.

No fim das contas, é completamente idiota dizer que "tal pessoa MERECE" mais ou menos dinheiro pelo que faz. Ela simplesmente tem ou não. O poder de compra e de troca se move através de acordos, e nós, nesse ponto, somos todos mercenários. Se essa história de merecimento existisse, eu deveria ganhar milhões todos os dias só por aturar vocês, pessoas de bem.

Só me façam um favor e não tentem justificar suas ações com o uso da enferma moralidade. Eu ofereço meus serviços por um punhado de moedas; você o faz por títulos imobiliários no pós-vida. Alguns gostam de se vender por preços mais baixos, que posso eu fazer?

Quanto a mim, fico feliz em erguer meu barracão na Avenida Inferno. Por um terreno lá, eu não pago com tempo - o que me sairia muito caro -, e, como já dizia um certo garoto, o que eu faço, faço porque gosto

CONTINUE LENDO
 

BBB


Há possibilidade de algum dia o BBB ser só uma lembrança?

"Queria participar do Big Brother Brasil."


1) DIRETO AO PONTO
Você é gostosa? Só gostosas ganham dinheiro com o BBB. Aliás, gostosas ganham dinheiro com qualquer coisa, BBB é coisa de gostosa preguiçosa.

2) FATO
Você sabe que não vai ganhar o prêmio e que não há vantagem nenhuma se expor em rede nacional por algumas semanas sendo que por alguns segundos você vai ser esquecido(a). Se você quer ser lembrado por muitos em momentos fúteis, vá jogar no Corinthians.

3) ATALHO
Você sabe que não vai nem conseguir entrar na bagaça, convenhamos. Se você faz tanta questão assim que os outros saibam tudo sobre você, quer ganhar brindes e se achar importante, saiba que você não precisa de inscrições, testes do sofá e cu pra criar um blog e um twitter.

Cê é assim? Não? Some.

A única utilidade do BBB não é pra ter mulher pelada na Playboy, afinal, SEMPRE vai ter mulher pelada na Playboy, existem BILHÕES de mulheres para aparecerem ali. A utilidade é a revista ter uma desculpa pra falar que só tem mulher famosa em seus ensaios. Além de ser mais barato, imagino.
Reflita: Pior que participante do BBB é ex-participante do BBB. E pior que ex-participante de BBB são os inscritos REPROVADOS para entrarem no BBB, ou seja: TODOS os espectadores daquela beleza.
CONTINUE LENDO