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Da universalidade


Não sei exatamente dizer quando foi que o ser humano começou a determinar prescrições e descrições universais, mas é fato notório que tal universalidade se faz bastante presente não só na nossa cultura, mas no que nós conhecemos de outros coletivos. Um fator que, segundo o próprio Lévi-Strauss, se mostra presente em quase todas as culturas é o fato de não entendermos a multiplicidade cultural como fenômeno natural e, como consequência, aceitável. De imediato, um contato direto com outras culturas causa um estranhamento que muitas vezes é interpretado religiosamente, criando assim impasses e incompatibilidades culturais. Não que a origem dessas dicotomias sejam sempre religiosas, utilizei-me desse exemplo aqui apenas com caráter ilustrativo. Tais impasses podem ter origem também, por exemplo, no âmbito econômico.

Historicamente falando, houve uma época em que a pluralidade cultural era interpretada sob uma ótica darwinista, o que deu os subsídios necessários para que se desenvolvesse uma pseudo-ciência que acreditava que encontraria as provas empíricas para determinar uma hierarquia de raças, onde os brancos europeus se situavam no topo. Essa pseudo-ciência era chamada de Eugenia, e foi dela que Hitler se fez valer em seus discursos sobre a criação de uma Alemanha superior, onde só existiria a famigerada raça ariana. Felizmente, com o fim da Grande Guerra e com a revelação das atrocidades cometidas no regime do holocausto, a eugenia deu seu último suspiro antes de ser descartada e qualificada como parte da história que alguns fariam questão de apagar, mas que se deve evidenciar, para que dessa forma se aprenda com os erros do passado.

É nesse contexto que surge um forte sentimento de fraternidade entre os seres humanos, e a partir disso, e com o sentimento de tentar evitar que a história se repita, é elaborada a Declaração Universal dos Direitos Humanos. É a primeira vez que vocês me veem falar dela aqui, mas não será a última, o ano de 1948 fica marcado como um salto que a humanidade deu para se tornar, como muitos caracterizariam, mais humana.

O texto da carta dos Direitos Humanos se mostra bastante aberto a aceitar as liberdades e direitos civis, como expressar cultura e religião. Tais premissas recebem um forte apoio da teoria relativista antropológica, que nos faz relativizar aquilo que nos é cultural, e portanto considerado normal de acordo com nossos padrões. Sob essa égide, torna-se bastante comum executar o exercício de familiarização com outras culturas, para que sejam expostos a práticas diferentes das ocidentais e possam passar a apenas aceitar aquilo como diferente, e não emitir uma análise essencialmente axiológica como um cidadão ignorante ao relativismo faria. Seguindo esse raciocínio, os argumentos para definir expressões culturais hierárquicas são facilmente desconstruídos.

O meu objetivo ao fazer toda essa introdução é demonstrar, de maneira rápida e sucinta, o argumento acadêmico que é utilizado para fundamentar a afirmação de que não existem culturas melhores ou piores, apenas diferentes. Tal afirmação é corroborada pela Carta dos Direitos Humanos, que preza pela igualdade e pela multiplicidade cultural. A problemática que vem à tona ao considerar isso tudo é bastante controversa e polêmica, e arrisco apostar neste momento do texto que nenhum de vocês, caros leitores, sairá em defesa da expressão cultural tal como ela é ao fim do texto.

Nesse momento, quase posso imaginar que os pensamentos que perpassam as cabeças de meus futuros leitores, indagando a que tipo de expressão cultural eu estou prestes a questionar. Aqui não irei me referir a uma prática em específico, mas a todas as práticas que vão diretamente contra os princípios fundamentais dos Direitos Humanos. Uma delas, que creio que a maioria de vocês já ouviram falar, é a mutilação vaginal, que é muito presente em alguns países africanos, islâmicos e asiáticos. Tal prática consiste, basicamente, na remoção do clitóris para que a mulher não obtenha prazer durante a prática sexual. Outro exemplo, é o infanticídio presente em algumas culturas indígenas, que acontece não por fatores de controle de natalidade, mas muitas vezes por crenças religiosas.

É aqui que fundamento meu questionamento principal: será que as culturas são apenas diferentes? Temos, de fato, a capacidade de sermos frios o suficiente para afirmar que tais costumes são apenas de ordem diferentes das nossas? A carta dos Direitos Humanos, que parecia tão unívoca para mim ao afirmar a igualdade irrestrita de culturas, parece perder força em seu argumento. Como bom ateu, e portanto alguém que acredita na validade do argumento científico, não posso clamar por verdade absoluta e dizer que esses dois exemplos que eu dei são práticas que devem ser consideradas condenáveis sob qualquer ponto de vista. Mas nesse sentido que eu vos apresentei, tenho a certeza ao afirmar para vocês que eu acredito na necessidade da construção de um juízo de valor. Deixando explícito, neste momento, que tal juízo de valor não deve ser, de forma alguma, absoluto, ou seja, as ideias e os valores construídos pelas pessoas devem ser constantemente questionados com a finalidade não de subverte-los, mas de aprimorá-los.
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Da natureza humana


A discussão hoje é sobre um assunto bem polêmico, com todos os tipos de opiniões. Iremos discorrer sobre um questionamento que há muito vem sendo tratado pelos filósofos, e desconstruído pelos antropólogos. A pergunta é: Existe algum comportamento naturalmente intrínseco ao ser humano? Algo que nós somos independente da sociedade em que estamos inseridos, independente de fatores externos? Existe, de fato, uma natureza humana?

Para Aristóteles, o homem era naturalmente bom, mas este se degenerava devido a sociedade. Caberia indagar aqui como que um ser que é essencialmente bom, constrói uma sociedade decadente e autodestrutiva. A proposição de Aristóteles é um tanto otimista, e está fora do meu alcance formular argumentos que dêem suporte para sua teoria. Mas vale coloca-la aqui, para caso algum de vocês tenha algo para levantar na nossa discussão a esse respeito nos comentários.

Indo adiante, temos Hobbes e Locke com proposições mais interessantes sob meu ponto de vista. Ambos afirmavam que, apesar de Locke nos trazer o conceito de Tábula Rasa, nós somos naturalmente maus, mas que podemos alcançar uma sociedade ideal através da história e da ciência. Historicamente notaríamos a presença de diversos conflitos e tomaríamos uma posição para evitá-los visando um bem comum. Os conflitos gerados por alimentos ou abrigo seriam sanados pelo desenvolvimento científico, que se encarregaria de suprir todas as necessidades humanas através da tecnologia. Mais ou menos como coloca Asimov em "Eu Robô", que aliás, recomendo a leitura. E não, não tem nada a ver com o filme do Will Smith. [Spoiler] Pra quem não leu, basicamente os humanos colocam as máquinas para desenvolver todo o trabalho de distribuição de recursos, mantendo a sociedade igualitária. [/Spoiler]

Já para o final do século XXI, temos uma derivação do que diziam os contratualistas com Nietzsche, que afirma que o ser humano é essencialmente egoísta, que todas as suas ações se baseiam no ganho pessoal. Chega a ser obscuro pensar dessa forma, já que teríamos o altruísmo e o sacrifício sendo feitos com um objetivo pessoal. Será que temos uma satisfação ao ver crianças carentes felizes recebendo presentes? Visamos a nossa felicidade em saber que a pessoa amada saiu ilesa devido ao seu sacrifício de se atirar na frente do disparo? Essa proposição faz bastante sentido, mas ela é posta em cheque pelo que vem a seguir.

O relativismo antropológico afirma que não existe nada natural ao ser humano que exceda as suas necessidades básicas à sobrevivência. Todo o resto seria fruto de uma construção cultural que vem direto do berço. Essa desconstrução nos leva a ter uma certa esperança para o ser humano. Mas seria ela a correta?

Não há meios para se afirmar com certeza que quaisquer uma das proposições citadas está correta. Eu, particularmente, vejo como mais coerente o que Nietzsche trás para nós como natureza humana, apesar de o argumento antropológico fazer bastante sentido também. Enfim, argumentem.



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Demasiadamente robóticos


Vocês conhecem a filosofia determinista? Bom, como não é a coisa mais inteligente subestimar vocês, vou explicar por alto. Determinismo é uma doutrina que diz que o ser humano é fruto direto do meio, ou seja, todas nossas ações são pré-determinadas pelo contexto que a gente vive. Resumidamente, é o oposto ao conceito de livre-arbítrio. Eu considero a doutrina deveras radical, já que ela afirma que não existem escolhas na vida do homem que não sejam pré-determinadas, o que existiria, seria a ilusão de escolha. Esses conceitos servem para ilustrar o tema que eu quero tratar, o de uma sociedade como fábrica.

Algum de vocês já teve a epifania de perceber a semelhança de uma escola com uma fábrica? A fábrica recebe matéria prima, que é transformada em produto que é vendido no mercado. A escola recebe alunos, que são transformados em mão-de-obra e são vendidos no mercado de trabalho. Claro e límpido como a água. Percebe que seguimos um padrão mais ou menos ordenado que tenta manter tudo como está? Mas nós somos acostumados demais, inertes demais, e sempre que aparece alguém querendo mudar alguma coisa, jogando a merda na cara de todo mundo e falando que só porque você se acostumou com o fedor não quer dizer que é porque parou de feder, julgam-no maluco. Acostumamo-nos a seguir padrões, e o primeiro deles é o de ser uma pessoa boa. 

Aí é que entra a questão espiritual, esse medo todo que nós temos de morrer acaba fritando alguns miolos. Uns dizem que a gente volta e coisa e tal. Outros já falam que quando saímos daqui zarpamos para uma jornada intergalática na vida eterna. Isso tudo acaba gerando uma consciência bizarra de que nós temos que ser santos, que as nossas atitudes aqui vão influenciar nessa porra de eternidade. Porque ser santo? As pessoas tentam se aproximar da divindade quando na verdade elas deveriam ser humanas, criam uma projeção divina da perfeição e querem que todos se tornem o mais próximo daquilo. Que há de errado em ser humano? Não nasceste assim? Um filme excelente que mostra isso é o Fight Club, pena que o filme fica uma merda do meio para o final, mas a idéia de quebrar as convenções sociais, alcançar aquilo que você pretende pra sua vida, estar se lixando para o sistema e o que pensarão de você, isso é ser humano, isso é se libertar. Interessante é que "ser bom" significa dançar conforme a música, respeitar os tabús e ser mais um qualquer que segue a nova onda das hypes. Falando nisso, porque você não entra na vibe e twitta isso aqui falando que tem um filho da puta qualquer está criticando o fato de você estar mais preocupado com o próximo capítulo da novela, ou em quando vai ser o próximo jogo do flamengo do que com coisas que realmente importam na sua vida? 


Dizem que se preocupam com a nossa educação, com a formação de cidadãos críticos que levarão essa nação para frente. Será que esse para frente não é uma mera questão de perspectiva? Ops, acho que isso não era pra ter sido notado. A nossa essência é ser livre, mas isso está a toda hora sendo roubado de nós, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Criam-se leis, valores, religiões, regras, morais, pecados e outras coisas mais que nos desumanizam, nos aproximam da máquina e do admirável mundo novo. Aqueles que comandam nada mais querem do que a humanidade funcionando mecanicamente, sem os distúrbios que a essência humana causa. E sabe o que mais? Eles estão conseguindo.


Quando a igreja inventou o pecado, inventou o instrumento de controle

José Saramago


Foi aí que nós perdemos de vez a nossa humanidade.
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Educação Infantil


Já percebeu como hoje em dia toda criança ‘maltratada’ vira rebelde? Vários especialistas em educação e psicólogos dizem que não se pode bater em uma criança porque ela pode ficar com trauma e se revoltar contra os pais quando crescerem ou algo assim. Devemos ser bons pais, tratar nossos filhos com extremo cuidado e não dar aquelas ‘palmadinhas básicas’ para não formarmos futuros ‘serial killers’. Será? Todo esse papo pode até ser ‘bonitinho’ e nos ajuda a imaginar uma sociedade melhor e sem violência para os nossos filhos, netos e bisnetos. Mas todo mundo sabe que na prática isso é bem diferente.

E se teu filho for uma peste que faz bagunça, barulho e escândalo em todo lugar que vai? Tu vai falar o quê pra ele? ‘Meu filho, não faça isso, isso é muito feio. Você deveria se comportar melhor, pois se você for malvado o papai noel não lhe dará presentes no natal.’ Primeiro que, se o moleque é uma peste, ele nunca vai escutar você falando um monte de baboseira dessas! Vai cuspir na tua cara e mandar você larga-lo. E tu vai ficar com que cara? Se o pivete faz a maior baderna quando tuas visitas estão na tua casa? Vai olhar pro menino e comentar: ‘Olha mulher, tão lindo ele cagando no meio da sala!’ Não podemos ser ridículos.


Não estou defendendo a violência contra as crianças, longe disso. Nem aqueles pais doentes que espancam seus filhos por causa de alguns erros. Mas umas palmadinhas na hora certa não deixam ninguém revoltado. Eu mesmo apanhei muito quando era pequeno e não me revoltei. Pelo contrário, entendo o porquê de todas as bofetadas que levei (que não foram poucas) e ainda acho que, em alguns casos, foi pouco. Lembro de um dia em que me escondi atrás da porta do banheiro e deixei toda a minha família pensando que eu tinha sido raptado, e tudo por não querer tomar banho. Quando eu saí do meu esconderijo não fizeram nada, só agradeceram a Deus porque eu estava bem. Outra vez fiz minha mãe queimar o dedo porque fiquei enchendo o saco pedindo 1 real para ir jogar vídeo game, ela pegou a chinela e arremessou na minha direção, porque, quando eu a vi tirando a chinela do pé, disparei na direção oposta. Acertou bem nas minhas pernas e eu caí estatelado no meio da sala. Vários parentes estavam na minha casa e não houve problema nenhum porque eles riram daquela cena. Cresci, e amo minha mãe mais do que tudo no mundo.


Agora se alguns pensam que a ‘psicologia infantil’ resolve tudo aí fica difícil. Por isso que só o que se vê nos noticiários são filhos matando os pais por causa de dinheiro. Educar um filho não é fácil e certas babaquices e mitos divulgados só ajudam complicar essa tarefa. Que se danem os defensores da Super Nanny. É lógico que o que ela diz ajuda, mas seguir rigidamente os seus conselhos pode não ser recomendável. A vida real não é um programa onde se podem editar cenas. É muito diferente disso.


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Somos todos mercenários


Outro dia vi um grupo de pessoas discutindo sobre a vida acadêmica. Tentavam chegar a um consenso sobre se ela é ou não o melhor caminho para o sucesso. Reclamavam, claro, do salário de artistas e jogadores de futebol. Aparentemente, é injusto que tais algozes da sociedade recebam tão bem enquanto pessoas de bem que estudaram suas vidas inteiras, como médicos, policiais, professores e funcionários públicos, não o fazem.

 Percebam, caros compatriotas, que o ponto aqui é exatamente a definição de sucesso. O que pude notar é que, para a maioria das pessoas, "sucesso" é um conceito bem simples, e pode ser medido pela sua capacidade econômica, além, claro, do modo como você é visto pela sociedade. E a vida, ao que parece, é nada mais do que uma grande busca pela honra, pela glória, pelo júbilo e pelo fucking sucesso.

Acontece na sua vida profissional - são irrelevantes seu talento e suas realizações enquanto você continuar morando num barraco enlameado e o único rei que você conhecer de perto for um urubu. O mundo profissional - lhe foi dito pelos Grandes Profetas nos Outdoors - é uma arena gigantesca, onde seres humanos devem, obrigatoriamente, se degladiar para atingir a glória. Só pode haver um, já disseram em Highlander.

Também é assim nas relações pessoais: todos sabem que é burrice desperdiçar valiosas e não-renováveis doses de amor, por exemplo, caso não haja nenhuma garantia de retorno. Até a sua estúpida relação com seus deuses é assim! "Faço o bem em troca de um apartamento no Paraíso, com vista pro mar, mobiliado com itens de ouro e povoado por concubinas virgens que obedeçam o meu comando."

Nos últimos tempos, a busca pela segurança tem ultrapassado os limites do bom senso de tal modo que nós, cidadãos comuns, nos transformamos em criaturas covardes, incapazes de dar novos saltos sem uma corda para nos segurar. Nós dizemos "eu não voto, não confio em governos" porque não podemos sustentar a chance de estarmos errados. Um assassino que falhe, no fim das contas, não deveria esperar por qualquer pagamento.

Percebam, no entanto, caros muppets, que status social e poder de compra nada tem a ver com merecimento. Nunca tiveram. Reis eram reis porque nasceram assim - e príncipes mantém o seu "sangue real" independente de qualquer estupidez, como, digamos, se vestir de nazista em festas da high society.

No fim das contas, é completamente idiota dizer que "tal pessoa MERECE" mais ou menos dinheiro pelo que faz. Ela simplesmente tem ou não. O poder de compra e de troca se move através de acordos, e nós, nesse ponto, somos todos mercenários. Se essa história de merecimento existisse, eu deveria ganhar milhões todos os dias só por aturar vocês, pessoas de bem.

Só me façam um favor e não tentem justificar suas ações com o uso da enferma moralidade. Eu ofereço meus serviços por um punhado de moedas; você o faz por títulos imobiliários no pós-vida. Alguns gostam de se vender por preços mais baixos, que posso eu fazer?

Quanto a mim, fico feliz em erguer meu barracão na Avenida Inferno. Por um terreno lá, eu não pago com tempo - o que me sairia muito caro -, e, como já dizia um certo garoto, o que eu faço, faço porque gosto

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