DEMASIADO CRÍTICO DE SÍ MESMO

Você não sabe o quanto é bom numa coisa até ser obrigado fazê-la de uma forma diferente. Ou melhor: só quando você tenta fazer certa coisa de uma maneira diferente é que você se toca de que não era tão ruim fazendo aquilo quanto imaginava. Provavelmente muita gente já sabia disso, mas eu só tive esse insight agora. Como esta coluna é minha, eu decido sobre o que escrever.
Digamos que você joga bola. Vai lá toda semana com a turma da faculdade, paga dez pilas pela quadra e corre feliz da vida por uma longa e interminável hora. Não é o melhor de todos, mas também nunca foi o último a receber o colete. Tem lá os seus momentos; nada muito brilhante, um golzinho aqui, uma caneta ali. Acabado o jogo o que você pensa é “droga, podia ter jogado melhor”. Todo mundo pensa isso. Somos todos demasiadamente autocríticos.
E ai que eu pergunto: já tentou fazer isso de olhos vendados? Só com uma perna, com os braços amarrados ou vestindo um macacão de neoprene? Já tentou alguma vez fazer isso de uma forma completamente diferente? Não, claro que não. Se o tivesse feito não estava aí reclamando. E não me venha com papinho de que já jogou com chuteira desamarrada, de calça jeans ou sobre o sabão – a questão aqui não é futebol. Aquilo foi só um exemplo. Só tentei demonstrar como a gente se cobra demais, muitas vezes mais do que deveria.
(Não foi um exemplo muito bom. Foi muito superficial; introduziu a ideia  mas ainda é muito contestável. Permitam-me tentar chegar lá com uma história pessoal)

Quando eu era mais novo tinha um cara na minha rua que queria ser jogador de sinuca. Não é um sonho muito comum para um pré-adolescente, mas ele queria porque queria isso. E tenho que admitir que o cara jogava bem. Entrava nos botecos e desafiava tiozões com 30, 40 anos de mesa. Nem preciso dizer que ele arrebentava, afinal isso aqui é uma anedota e nas anedotas tudo sempre dá certo. Mas o problema dele começou no primeiro campeonato.
Não sei direito, mas acho que era um mísero campeonatinho de boteco que custava 30 reais para entrar. O primeiro colocado levava uma grana preta, tipo quase tudo o que fosse arrecadado, e o segundo tinha que se contentar com um engradado de cerveja (o que, convenhamos, já era um belo prêmio). Qual a posição do meu amigo, então com 13 ou 14 anos? Segundo, claro. Ninguém o deixou ficar com a cerveja, porém o vencedor foi gente fina e deu algo como 50 reais pro moleque. Este, por sua vez, ficou desolado.
Sim, desolado. Não por causa da cerveja, que de qualquer maneira foi bebida com o dinheiro do prêmio, mas com o seu desempenho. É inacreditável, eu sei. Ele ficou em segundo e ainda assim achou que foi mal. “Eu parecia um escroto jogando” foi a frase que ele mais repetiu naquele dia. Depois disso ele ainda entrou em alguns campeonatos, ganhou uma meia dúzia e ficou em segundo ou terceiro na maioria. Nessas horas ele sempre repetia: “joguei que nem um escroto, que nem um escroto”.
 
Escroto ou não escroto, queremos as conclusões.
O que isso significa? Não faço ideia  Até agora nada, eu acho. Azar de quem chegou até aqui – já faz tanto tempo que estou escrevendo este texto, entre idas e vindas, que nem sei mais como começou. Presumo que seja aquele papinho que eu tava na cabeça uns dias atrás sobre como as pessoas tem uma má impressão de si mesmas. Enfim, segue o baile.

Um dia esse meu amigo caiu de skate e rolou ladeira abaixo. Quebrou os dois braços, um deles com uma absurda fratura exposta. Teve que por pinos e até uma placa de titânio no lugar do osso do antebraço esquerdo. Não perdeu os movimentos nem das mãos nem dos braços, mas como esse novo osso era menos poroso que o real havia certos movimentos em que os tendões roçavam no parafuso do metal e ardiam como fogo. Um desses movimentos era exatamente a posição da tacada.
 
O cara nunca mais jogou como antes. Na verdade ele nem poderia jogar, mas o vicio fala mais alto. Hoje você vê claramente que ele tem talento, mas as limitações físicas impedem-no de fazer qualquer lance espetacular. Ele apenas joga, como qualquer um jogaria, com um ou outro lance mais ou menos espetacular e nada além disso. Aquele gênio dos botecos se foi e só sobrou mais um para contar história. Hoje ele fala “cara, como eu jogava bem e não sabia”.
 
Eu confirmo: cara, como ele jogava bem. E sabia disso, claro que sabia. Mas não acreditava em si mesmo. Ou até acreditava, não sei, só que ele tinha uma forma tão peculiar de encarar as derrotas que certamente influenciava as jogadas seguintes. Ele seria sempre o segundo pensando daquele jeito. É muito importante acreditar em si mesmo e cobrar-se um pouco menos, sobretudo no esporte – onde as derrotas são perfeitamente normais e aceitáveis. Ninguém é perfeito, já diz o ditado.
 
Não há fórmula para se viver plenamente. As pessoas são muito diferentes. Têm diferentes corpos, culturas, ideologias. O que dá certo para mim não necessariamente funciona com o filho da vizinha. Só é preciso se cuidar com os extremismos. Não ser um fundamentalista é fundamental nessa vida. Não viva só comendo maçãs sem nem cogitar uma banana. E de um pouco de tudo no mundo que se tira a felicidade plena, o verdadeiro alimento da vida. Seja um ser mediano e você será feliz.
 
Bom, pelo menos essa é a minha teoria.

Autor : L. Sena ~

Artigo DEMASIADO CRÍTICO DE SÍ MESMO Publicado Por L. Sena Na data de 4 de out. de 2012. Foram Feitos 0 Comentários: Para o Artigo DEMASIADO CRÍTICO DE SÍ MESMO
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