Por que os gamers ainda são considerados nerds?


Ah, cara. Não sei. Mas é uma boa pergunta.

Talvez porque os nerds sempre se destaquem da multidão em quase tudo que fazem, seja jogar vídeo-games, jogar RPG, ser gênio na computação, apanhar na escola ou ser enterrado de cabeça pra baixo em uma lata de lixo. É difícil não notar aquela figura que não sabe se vestir direito, usa óculos de aro grosso, é magro demais/gordo demais e não possui habilidades com as mulheres, a não ser babar por elas. Mas isso não é uma habilidade, porque você também baba por algumas mulheres. E nem é muito nerd. E mesmo que seja isso não vem ao caso, porra! Presta atenção no assunto principal, cacete.

Enfim, os nerds se destacam nas atividades que desempenham, e acabam virando ícones daquelas atividades. Eles chamam atenção demais, por representarem o fracasso humano que nós não queremos ser. Mesmo que seja o Bill Gates, um nerd sempre representa o fracasso. Ok, o Bill Gates é um nerd rico, e poderia comprar você e toda sua família, e fazer linguiça com vocês. Mas mesmo com a capacidade de transformar qualquer pessoa em churrasco, eu não queria ser o Bill Gates. Pô, o cara é um nerd. Ele é O nerd. Ele pode ser rico, mas aposto que todo mundo continua tirando onda com o cara. Prefiro ser pobre a passar a vida sendo tirado.

Mentira; prefiro ser rico. Mas eu sou pobre, e todo mundo tira onda com a minha cara do mesmo jeito. É por isso que eu jogo vídeo-games, pra fugir dessa vida insatisfatória e dessas pessoas mesquinhas que me zoam.

Eu podia estar matando, eu podia estar passando fogo em geral, eu podia plantar uma bomba no banheiro depois da merenda com suco de uva. Mas eu preferi jogar vídeo-games. Basicamente é esse pensamento que define o nerd: um psicopata sem culhão para realizar massacres em escolas. Massacres em escolas são feitos por ex-nerds, que dão o passo adiante e entram para a história como MALUCOS, uma categoria diferente do nerd inofensivo.

Mas voltando ao ponto: o nerd é um cara que sofre no mundo real, e procura mundos alternativos para ser mais feliz. Nós chamamos isso de escapismo. Fontes comuns de escapismo são os livros, os filmes e o tóchico. Pessoas comuns praticam escapismo o tempo todo com livros e filmes. Pessoas cool praticam o escapismo com o tóchico e as dogras. Como os nerds não são pessoas normais e muito menos cool, eles optam por um meio termo como weapon of choice do escapismo: vídeogames.
Os videogames são ótimos para o nerd escapista, porque normalmente duram muito mais do que as duas horas de um filme, e qualquer Final Fantasy hoje em dia leva mais tempo pra ser terminado do que um livro. Aliás, qualquer Final Fantasy hoje em dia leva mais tempo pra ser terminado do que um prédio de 200 andares. Maravilha. Me botem nesse mundo irreal onde eu posso lançar magias e tacar fogo no rabo das pessoas apenas com o meu pensamento. Isso é MUITO melhor do que o mundo que passa no Jornal Nacional, vocês hão de concordar comigo.

Outra grande vantagem dos videogames sobre a vida real é a sensação de controle. Com o joystick na mão, você faz o que quiser no ritmo em que quiser (heh), algo um pouco diferente da vida real. Considere ainda que o nerd médio possua poucas habilidades sociais, o que redunda em pouquíssimo controle sobre o ambiente e sobre as pessoas á sua volta. Você sabe, pra controlar o comportamento das pessoas, você precisa se comunicar com elas, para entender o que elas querem e se você tem algo a oferecer a elas. Os nerds minimizam o contato com os demais seres humanos, portanto, controlam pouco o ambiente. Se voltar para os videogames é realmente algo muito natural se você pensar dentro dessa concepção.

Todos nós evitamos situações que não controlamos, pois nos sentimos inseguros nelas. Se o que você evita é a realidade como um todo, isso te deixa muito tempo livre na mão pra gastar com coisas que não sejam relacionamentos humanos. O mais engraçado é que os nerds evitam os relacionamento reais, mas vão buscá-los nos ambientes virtuais do Face ou do World of Warcraft, por exemplo. O ser humano é um ser social, de fato.

Tempo livre pra jogar gera um jogador inveterado. Como os nerds não são burros, apenas feios e bitolados, eles conseguem normalmente um desempenho razoável nos mais diversos jogos, colocando-se acima dos noobs, atingindo um certo status e granjeando o respeito que suas calças mijadas nunca lhes dariam no mundo real. Está lançada a semente para o nascimento de um hardcore gamer: dedicado demais á causa dos videogames, defensor do seu amor eletrônico e emblema definitivo do que é um jogador.

Embora os casual gamers venham crescendo muito desde o advento do Wii, ainda não aparecem em estatísticas, já que não levam essa parada de jogo muito á sério. Quem aparece e faz demandas ao mercado é o hardcore gamer que, como já vimos, tem grandes chances de ser um nerd.

Assim, o destaque involuntário dado a esses indivíduo losers, acaba recaindo sobre toda a classe dos gamers. O que é ruim sempre se destaca, e no caso dos gamers, o que se destaca é o nerd. A equação se fecha e temos o resultado final de porque os gamers ainda são considerados nerds. Obrigado meus 3 leitores. Vocês são ótimos. Joguem mais videogame. Caso não sejam nerds, obviamente.




 

Dos Privilégios

Homem entra no bar. Se senta. Pede cervejas. Bebe. Não conversa. Não se diverte. Volta pra casa. Dorme. Noite ruim. É a vida.
 
Homem entra no bar. Carregado. Cadeira de rodas não permite subir o meio-fio ou o degrau da entrada. Permanece sentado. Pede cervejas. Bebe. Não conversa. Não se diverte. Volta pra casa. Dorme. Noite ruim. Injustiça. Preconceito. Morte. Apocalipse.
Era de se esperar, no fim das contas, que ao estender a mão, queiram lhe arrancar o braço. Talvez seja da natureza humana. Talvez seja o único modo que alguns aleijados* encontraram pra descontar suas frustrações. Talvez a idéia de justiça e igualdade que corre na cabeça das pessoas também seja meio aleijada. É talvez pra caralho.
O que acontece é que existe muita gente escrota. Escrota o bastante pra achar que o mundo precisa dar-lhes um prêmio de consolação, ou, talvez, até uma recompensa.
Quer dizer, por um lado tem todo aquele papo altamente filosófico em prol de todo grupo de minorias. Às vezes nem tão minoria assim, no fim das contas. O ponto é, qual a razão de se criarem leis e regras e programas de apoio às pessoas especiais (me refiro a pretos, aleijados, bichas, mulheres, retardados, putas, corinthianos ou a escrotice que vocês quiserem inventar que é uma pobre minoria), se vossa tão iluminada idéia é buscar a igualdade?
"Ó, implacável escritor", vocês me dizem então, com suas vozes débeis, "mas o que deveria acontecer então ao pobre pretinho que é constante vítima de agressões brutais?"
Não sei se isso é um problema pra vocês, mas acontece que agressões brutais, por si só e independente da casta da vítima, é uma porra dum crime. Se você agride um branco, um amarelo, um corno, um político ou uma bichona, tu vai preso do mesmo jeito, cacete! Ou, pelo menos, em teoria.
Mas isso, claro, é ignorável. Criar uma lei que pune aqueles que agridem retardados não faria diferença alguma. Agressores em geral seriam, em teoria, punidos. Nada se perde, daí.
Nosso pequeno problema começa, na verdade, com uma constatação que possivelmente soa um pouco estranha: querem me tirar o direito de ser racista!
Claro. É possível que vosso primeiro pensamento seja "que tipo de vilão exigiria tal direito?". Em absoluto, o ponto não consiste no exemplo propriamente dito, mas em todos os postulados necessários pra que esse direito seja negado a alguém. Vamos por partes.
Em primeiro lugar, deve-se distorcer a idéia de igualdade. Me proibir de odiar australianos, por exemplo, é me obrigar a ser amável com eles. Afinal, se uma imagem social aceitável diante deles não for mantida, automaticamente me torno um odiador criminoso filho da puta.
A segunda implicação é ainda mais terrível: deve-se aceitar que o Estado possui soberania sobre os pensamentos de seus cidadãos. Ou sobre a expressão deles, o que, até certo grau, dá no mesmo. Ou seja, um conjunto de leis decide o que eu não devo pensar. O que é, essencialmente, aceitar que é possível ao estado decidir o que eu devo pensar - resultado obtido pelo simples processo de me ser negado pensar em qualquer coisa que não se queira que eu pense. Lá se vai a liberdade de expressão. Matar a liberdade de expressão é o mais perto que se pode chegar de ferir a liberdade de pensamento.
A idéia de querer poder pensar o Mal ainda pode soar repugnante, mas o conceito de Mal depende de muita coisa - inclusive da cultura, dos valores que o próprio estado nos passou a vida inteira.
A idéia de se criar a obrigação - mesmo que maquiada - de se amar um grupo de pessoas soa absurda vista de qualquer um dos lados. Um cidadão-de-pernas-e-braços-completamente-funcionais não se sentiria nada bem ao ter que ser cordial com algum portador de necessidades locomotivas especiais que seja escroto; e um aleijado, por sua vez, certamente se sentiria deslocado ao saber que as pessoas à sua volta o tratam bem por mera obrigação.
Ao que parece, manter as Roupas do Mundo limpas e na moda é mais importante do que manter a verdade correndo nas suas veias e oleodutos. 
Que eu morra um escroto pra vocês e seus Direitos Androides, mas o que eu faço, faço porque gosto.
* Todas as palavras que nomeiam qualquer classe de seres humanos nesse texto podem ser substituídas de acordo com o gosto e a vontade do leitor. Divirtam-se.
 

DEMASIADO CRÍTICO DE SÍ MESMO

Você não sabe o quanto é bom numa coisa até ser obrigado fazê-la de uma forma diferente. Ou melhor: só quando você tenta fazer certa coisa de uma maneira diferente é que você se toca de que não era tão ruim fazendo aquilo quanto imaginava. Provavelmente muita gente já sabia disso, mas eu só tive esse insight agora. Como esta coluna é minha, eu decido sobre o que escrever.
Digamos que você joga bola. Vai lá toda semana com a turma da faculdade, paga dez pilas pela quadra e corre feliz da vida por uma longa e interminável hora. Não é o melhor de todos, mas também nunca foi o último a receber o colete. Tem lá os seus momentos; nada muito brilhante, um golzinho aqui, uma caneta ali. Acabado o jogo o que você pensa é “droga, podia ter jogado melhor”. Todo mundo pensa isso. Somos todos demasiadamente autocríticos.
E ai que eu pergunto: já tentou fazer isso de olhos vendados? Só com uma perna, com os braços amarrados ou vestindo um macacão de neoprene? Já tentou alguma vez fazer isso de uma forma completamente diferente? Não, claro que não. Se o tivesse feito não estava aí reclamando. E não me venha com papinho de que já jogou com chuteira desamarrada, de calça jeans ou sobre o sabão – a questão aqui não é futebol. Aquilo foi só um exemplo. Só tentei demonstrar como a gente se cobra demais, muitas vezes mais do que deveria.
(Não foi um exemplo muito bom. Foi muito superficial; introduziu a ideia  mas ainda é muito contestável. Permitam-me tentar chegar lá com uma história pessoal)

Quando eu era mais novo tinha um cara na minha rua que queria ser jogador de sinuca. Não é um sonho muito comum para um pré-adolescente, mas ele queria porque queria isso. E tenho que admitir que o cara jogava bem. Entrava nos botecos e desafiava tiozões com 30, 40 anos de mesa. Nem preciso dizer que ele arrebentava, afinal isso aqui é uma anedota e nas anedotas tudo sempre dá certo. Mas o problema dele começou no primeiro campeonato.
Não sei direito, mas acho que era um mísero campeonatinho de boteco que custava 30 reais para entrar. O primeiro colocado levava uma grana preta, tipo quase tudo o que fosse arrecadado, e o segundo tinha que se contentar com um engradado de cerveja (o que, convenhamos, já era um belo prêmio). Qual a posição do meu amigo, então com 13 ou 14 anos? Segundo, claro. Ninguém o deixou ficar com a cerveja, porém o vencedor foi gente fina e deu algo como 50 reais pro moleque. Este, por sua vez, ficou desolado.
Sim, desolado. Não por causa da cerveja, que de qualquer maneira foi bebida com o dinheiro do prêmio, mas com o seu desempenho. É inacreditável, eu sei. Ele ficou em segundo e ainda assim achou que foi mal. “Eu parecia um escroto jogando” foi a frase que ele mais repetiu naquele dia. Depois disso ele ainda entrou em alguns campeonatos, ganhou uma meia dúzia e ficou em segundo ou terceiro na maioria. Nessas horas ele sempre repetia: “joguei que nem um escroto, que nem um escroto”.
 
Escroto ou não escroto, queremos as conclusões.
O que isso significa? Não faço ideia  Até agora nada, eu acho. Azar de quem chegou até aqui – já faz tanto tempo que estou escrevendo este texto, entre idas e vindas, que nem sei mais como começou. Presumo que seja aquele papinho que eu tava na cabeça uns dias atrás sobre como as pessoas tem uma má impressão de si mesmas. Enfim, segue o baile.

Um dia esse meu amigo caiu de skate e rolou ladeira abaixo. Quebrou os dois braços, um deles com uma absurda fratura exposta. Teve que por pinos e até uma placa de titânio no lugar do osso do antebraço esquerdo. Não perdeu os movimentos nem das mãos nem dos braços, mas como esse novo osso era menos poroso que o real havia certos movimentos em que os tendões roçavam no parafuso do metal e ardiam como fogo. Um desses movimentos era exatamente a posição da tacada.
 
O cara nunca mais jogou como antes. Na verdade ele nem poderia jogar, mas o vicio fala mais alto. Hoje você vê claramente que ele tem talento, mas as limitações físicas impedem-no de fazer qualquer lance espetacular. Ele apenas joga, como qualquer um jogaria, com um ou outro lance mais ou menos espetacular e nada além disso. Aquele gênio dos botecos se foi e só sobrou mais um para contar história. Hoje ele fala “cara, como eu jogava bem e não sabia”.
 
Eu confirmo: cara, como ele jogava bem. E sabia disso, claro que sabia. Mas não acreditava em si mesmo. Ou até acreditava, não sei, só que ele tinha uma forma tão peculiar de encarar as derrotas que certamente influenciava as jogadas seguintes. Ele seria sempre o segundo pensando daquele jeito. É muito importante acreditar em si mesmo e cobrar-se um pouco menos, sobretudo no esporte – onde as derrotas são perfeitamente normais e aceitáveis. Ninguém é perfeito, já diz o ditado.
 
Não há fórmula para se viver plenamente. As pessoas são muito diferentes. Têm diferentes corpos, culturas, ideologias. O que dá certo para mim não necessariamente funciona com o filho da vizinha. Só é preciso se cuidar com os extremismos. Não ser um fundamentalista é fundamental nessa vida. Não viva só comendo maçãs sem nem cogitar uma banana. E de um pouco de tudo no mundo que se tira a felicidade plena, o verdadeiro alimento da vida. Seja um ser mediano e você será feliz.
 
Bom, pelo menos essa é a minha teoria.
 

O MUNDO É ALEIJADO

Texto de um dos meus primeiros blogs/sites,levem em consideração que era um adolescente escrevendo e divirtam-se.

Acontece que ali pros lados da rodoviária, perto de um conjunto habitacional, um certo fulano pede esmola há anos e anos e anos. Vale lembrar, claro, que não muito longe dele costumam figurar um velho sanfoneiro que troca música por moedas, alguns camelôs, às vezes hippies vendendo arame torcido e todo tipo de gente tentando todo tipo de coisa - mesmo que seja guardar carros ou conversar.
A habilidade única do sujeito de quem eu falava, por outro lado, é... nenhuma. O desgraçado passa o dia inteiro debaixo de um guarda-sol, batendo a merda da caneca no chão, sem dizer uma maldita palavra, e acha que eu preciso fornecer capital a ele simplesmente porque ele é - e muito - aleijado. Que seja, ele tem braços e pernas retorcidos e imprestáveis, e uma bela corcunda. Mas o que isso tem a ver com dinheiro? Talvez a ideia seja que eu - e outros transeuntes locais - deva me sentir culpado por algo que nada tem a ver comigo, ou que seja meu dever indenizar o cidadão pelo mal que a Existência lhe fez.
Eu, por outro lado, já vejo essa coisa toda de esmola como um investimento. Talvez me valha à pena pagar por um pouco de boa música na sanfona, ou por uma lavagem razoável no carro, mas qual seria o retorno obtido ao pagar pelo garoto do guarda-sol? Claro, vocês podem me dizer que seria o ingresso do freak-show, mas, mais uma vez, lhes peço singelamente que vejam a coisa sob o meu ponto de vista: Eu não preciso pagar. Não é como se ele fosse andar pra fora dali. Heh.
O ponto é que essa ideia de que precisa existir algum equilíbrio entre justiça e injustiça é completamente furada. Se existisse essa babaquice de Destino, ele seria um ouvinte de Matanza ("Eu não devo a ninguém, devo se tiver a fim, a minha vida é minha e a sua que se foda"). E o mais curioso é que mesmo depois de se foder seguidas vezes, esse tipo de camarada continua com essa ideia - a de que o mundo precisa e vai recompensar quem já nasceu fodido - na cabeça. Esperem sentados, vermes.
 

PIRATARIA NOS GAMES. VOCÊ SABE O QUE É ISSO?


Normalmente eu só gosto de criar polêmica quando tenho certeza sobre a minha opinião a respeito do assunto em pauta, para poder defender a minha posição até o outro indivíduo ficar de saco cheio e admitir que eu estou certo.
Porém, no caso da pirataria digital eu não consigo chegar a uma opinião final sobre o assunto. Se eu não consigo fazer isso, devo admitir que a coisa toda simplesmente é complexa demais, muito mais complexa do que a minha capacidade de chegar a uma conclusão sobre ela. Ou admito que não tem solução ou fico tentando morder o próprio rabo, feito cachorro louco.
Supondo que vocês fiquem tão confusos quanto eu, então peço que vocês também suspendam seus julgamentos prévios, e vamos tentar pensar no quadro todo. Quem sabe a gente se torna menos burro coletivamente, e consegue concluir coisas mais inteligentes a longo prazo.
Vou compartilhar com vocês algumas coisas que me incomodam sobre o assunto, e que me impedem de chegar a uma satisfatória resposta sobre a pergunta:
Usar cópias não-oficiais de jogos é errado?
É fácil dizer que é errado. O maior argumento é de que pirataria é roubo, e roubo sempre é errado.
Não tenho dúvidas de que o magrão que vende cd pirata e ganha grana com isso está cometendo um crime. Um não, vários. Além de vender um produto ruim e sem nenhuma garantia, ainda prejudica quem trabalha com a venda legal do produto, que não pode competir com esse cara; esse cara também não paga nenhum tipo de imposto, não contribui para o crescimento do país, etc. Nesse caso acho que todos concordamos que está sendo praticado algo “errado”. Mas essa não é a pergunta que eu fiz. Eu perguntei sobre o USO de cópias não-oficiais, e não sobre sua reprodução e venda.
Ok. Agora vamos ás partes problemáticas:
Se eu baixo um jogo da internet, gravo em casa e jogo só no meu console, isso é roubo? E se for roubo, é roubo do quê? Não é como se você chegasse em uma loja e escondesse o dvd do jogo na jaqueta, saindo sem pagar. Nesse caso você teria de fato roubado a loja, que comprou e pagou pelo jogo para poder ter lucro revendendo. Você roubou algo palpável, material. Se te pegarem na saída, você vai ter que devolver o dvd.
Mas no caso da internet, você roubou o quê? Um monte de bytes? Como você faz pra devolver? Os fabricantes nem sabem que esses bytes estavam lá, sendo tranferidos para o seu computador. Se você quiser devolver esses bytes pra eles (suponha que você coloque os bytes em um dvd e leve para os fabricantes) eles vão mandar você enfiar o dvd no rabo. Materialmente falando não é roubo. Nenhum patrimônio físico foi subtraído de ninguém.
Aí passamos para a esfera metafísica da parada. A argumentação é de que você roubou uma propriedade intelectual. Que, de alguma forma, naquele monte de bytes existe uma idéia original de alguém, que merece ser reembolsado por sua idéia original a cada vez que alguém resolve jogar aquele jogo. Mas é meio complicado, porque você não quer exatamente a IDÉIA que o cara teve. Não é como se você fosse pegar a idéia do cara e criar um jogo igual pra vender. Você só quer jogar. Você não está roubando a idéia, enfiando ela em um saco plástico e enterrando no quintal. Quando você joga, você só usa a idéia por um tempo e depois larga ela.
Ok, então você deve pagar pelo “empréstimo temporário de idéia materializada na forma de um jogo”. Está começando a ficar meio ridículo, mas tudo bem. Vamos supor que seja certo você pagar a alguém pelo uso temporário de uma idéia. Mas espera. Olha quantos jogos iguais existem no mercado hoje em dia. Pense em todos os clones de Doom e Starcraft que você já jogou. Pior ainda, será que a Blizzard (Starcraft) pagou á Westwood Studios por ter feito um jogo que era claramente inspirado em Dune II? E todos os clones que vieram depois? Todos pagaram retroativamente pelo uso da idéia “jogo de estratégia em tempo real”?
Lógico que não pagaram. É só um gênero, um tipo de jogo. Além do mais os jogos são DIFERENTES uns dos outros, mesmo que seja só uma diferença no design das unidades de combate.
Tá, então se for uma coisa um pouco diferente eu não preciso pagar pela idéia? Então se eu baixar um jogo e trocar o nome dele por algo aleatório, ele já virou uma coisa diferente? Não? Quanto você precisa mudar pra virar outro jogo e não pagar pela idéia? E se eu não entender a idéia do cara que fez o jogo? Suponha que eu compre o jogo, mas ele seja muito complexo e eu não gostei. Eu não usei a idéia original do cara, porque eu sou burro e não entendi o jogo. Eu deveria pagar por uma idéia que eu nem mesmo sei qual é?
As coisas estão saindo de controle nessa argumentação não é? É exatamente o que eu quero que você perceba: a complexidade e bizarrice da questão. Vamos tentar voltar ao mundo real. Vamos pensar em uma mídia parecida com os jogos e que também sofrem do problema de “roubo” de propriedade intelectual. Pense nos livros. A rigor, a argumentação é a mesma: um monte de idéias reunidas em um só lugar (um livro) e se você quiser ter acesso ás idéias, você precisa comprar o livro. Inclusive, você pode ser processado se baixar Harry Potter da internet, exatamente como acontece com os jogos.
Mas apesar da propaganda anti-pirataria, não é a mesma coisa. E nem tão simples assim. Pense nas bibliotecas públicas. Porque você pode ler Harry Potter de graça em uma biblioteca pública, mas não pode ler de graça baixando da internet? Qual é a diferença? Por que na biblioteca pode, mas na internet não? Existe alguma boa razão para isso ou é só uma decisão arbitrária? Vão dizer que alguém pagou pelo livro que está na biblioteca, mesmo que ele seja lido por centenas de pessoas depois disso. Ok. Então precisamos de praças públicas de jogo, pra quem não tem dinheiro poder finalmente jogar? O governo compra algumas cópias de HALO 3, instala em uns computadores aí, se comprometendo a não fazer cópias, e todo mundo vai poder jogar HALO 3 de graça?
“Ah, mas livro é cultura. Vídeo-game não”. Ah tá. O livro de Harry Potter é cultura mas o jogo de Harry Potter não é? Como assim? Quem define isso? Age of Empires não é cultura? Eu conheço um monte de professores que usam o jogo para ensinar História.
Como eu falei no começo, eu queria levantar algumas perguntas, sem necessariamente chegar a alguma resposta definitiva. Esse post já ta enorme, então dependendo do interesse de vocês, a gente pode continuar na próxima semana.
Pensando bem, vocês que se explodam, vou escrever mais de qualquer jeito.