"Acho isso absolutamente fan-tás-ti-co", ouviu a
irmã dizer pela quinta vez naquela noite. Ela estava ao telefone, como de
costume, totalmente distante do mundo ao seu redor; ele, deitado à cama, olhava
a moça com os olhos esbugalhados de quem não acredita no que vê. Mais uma vez,
mais uma noite e a cena se repetindo. Dá oito horas, a irmã sai do computador e
corre para o celular. Disca um número e chama por Corina, a melhor amiga.
"Me conta tudo, tu-do o que aconteceu na festa de
ontem!" Ele sabia de cor as frases feitas da irmã. Era todo dia a mesma
coisa. Depois do "alô" sempre vinha um "jura..." seguido de
um sonoro "sério?!". Não mudava nada, nunca. Para ele elas sempre
conversavam a mesma coisa. Ele só não gostava quando Corina não podia atender e
a irmã ligava para a segunda melhor amiga, porque ele podia jurar que elas na
verdade não se gostavam. É que o "oi amooor" da irmã soava-lhe muito,
muito falso.
No começo, quando a mãe os colocou no mesmo quarto, ele até
achou legal. Ouvir as conversas da irmã mais velha, que gurizão não gostaria?
Sempre havia a esperança de ela deixar escapar alguma coisa suja que alguma
menina do colégio fez. Só que com o tempo aquilo se tornou chato, maçante,
repetitivo. Era sempre o mesmo papo, as mesmas pessoas, as mesmas festas.
"Como consegue viver numa rotina tão grande", pensava ele. Tinha dias
que sua vontade era levantar da cama, arrancar o telefone da irmã e gritar para
que todo o mundo ouvisse "levanta e vai viver tua vida, mulher!"
Ele tinha era pena da irmã. Uma pena dura, melancólica.
Achava o maior desperdício do mundo aquela vida de intrigas e fofocas que ela
levava. O pior jeito possível de se viver a adolescência, pensava. Ele sonhava
com o dia em que ela acordaria e diria para si mesma "nossa, onde foi que
eu estive esse tempo todo que não vivendo?" Só temia que esse chegasse
muito tarde para a irmã que tanto amava.
A vida de verdade estava lá fora, pensava o rapaz.
"Cachorros latindo, carros nas ruas, passarinhos voando. A essência de
viver é a novidade, é conhecer gente, lugares, coisas -- não ficar parado nunca.
Quem não se mexe cria limo, se enche de poeira. Todo dia é dia de mudança, de
conhecimento, de crescimento. O ser humano precisa ser um pouco empreendedor de
si mesmo, seja lá o que isso signifique. É preciso tentar, enfim. Tentar, e, se
não der certo, tentar de novo".
Ele só lamentava não poder botar seus pensamentos em
prática: desde o acidente que só conseguia mexer os olhos.

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