Priscila se olhava no espelho pela décima quinta vez aquela
noite. Conferiu com dedicada atenção se estava tudo em ordem: a densa sombra
negra que lhe acentuava a cor dos olhos; o blush
brilho, cujo poder de
transformar os finos lábios em um pedaço de carne extremamente suculento e
desejável ela superestimava; o pó-de-arroz, marcando-lhe ainda mais as maçãs do
rosto. Tudo deveria estar perfeito – seria mais uma noitedaquelas.
Olhou para o antigo relógio sobre a penteadeira com uma expressão
de ansiedade. Já se passava da meia-noite. “Onde estará Verônica, que nunca
chega?” A melhor amiga combinara de buscá-la às 21h, e até agora nada. Priscila
cruzava os braços meio consternada, como quem já se cansou até de ficar brava.
Suspirava, e cada suspiro parecia aumentar-lhe a agonia.
De repente ouve-se palmas vindas do portão. “Verônica,
finalmente”, comemorou a menina. Então correu até o armário, pegou a imensa
bolsa prateada e, ainda antes de abrir a porta do quarto, olhou-se mais uma vez
no espelho. “É hoje”, disse baixinho, enquanto conferia o caimento do vestido
em meio a um sorriso quase sensual. A meta estava bem definida: seduzir Pedrão,
melhor amigo de Marcos, para que este finalmente perceba aquilo que está
perdendo. As mulheres e suas obscuras táticas de conquista.
Enquanto Priscila fechava a porta do quarto, a surpresa:
“onde é que a senhorita pensa que vai, mocinha?”, bradou-lhe o pai, olhando
sério sob os óculos de meia-lua. “Não quero saber de filha minha saindo essa
hora da noite com um marmanjo qualquer”. A moça tentou justificar, apavorada,
dizendo que não era nenhum marmanjo e sim Verônica. O velho, porém, parecia
irredutível: “eu não criei filha minha para entregar de mão-beijada a qualquer
um, não”.
Ela teve um sobressalto. O medo de antes tinha se
transformado em ódio. De mão-beijada? Quem aquele cara pensava que era para
falar assim dela? Priscila tomou-se de uma raiva que nunca havia sentido antes.
Sentia o sangue subindo à cabeça, corando-lhe a face e as orelhas. “De
mão-beijada, uma ova, velho safado”, pensou, sem coragem de dizer. Então ela
parou, respirou fundo e, com uma calma quase cínica, falou: “não tem nenhum
homem na jogada, papai. Eu vou sair com a Vêro”. Depois segurou delicadamente a
mão do velho e puxou-o em direção à porta.
Ao entrar na sala, encontraram a mãe sentada no sofá,
tricotando. Quando viu os dois passando de mãos dadas a mulher teve um
estranhamento. Sabia que aqueles dois não estavam tendo ultimamente uma relação
muito amigável, e vê-los assim, de mãos dadas dentro de casa, era anormal.
Perguntou, com aquela voz de quem tem medo de ouvir a resposta, “que é que
vocês dois estão aprontando?” Seguiram-se segundos de tenso silêncio. Como
ninguém respondesse, a mulher tornou a falar, desta vez com mais convicção:
“ninguém vai me dizer o que é que está acontecendo”?
A dupla trocou olhares indagadores. Ambos sabiam no que
aquela pergunta poderia levar: ela, Priscila, ficaria sem sair de casa por um
mês; ele sem sexo. A mãe não precisava de motivo para estas repressões –
bastava que alguma coisa destoasse do comportamento usual da casa. Gostava da
rotina, a velha. Os dois que estavam em pé soltaram as mãos e ficaram parados a
olhar para o nada. O pai tomou-se de coragem e disse: “fizemos as pazes”.
Priscila sorriu um sorriso amarelo e assentiu com a cabeça.
A mãe pareceu se contentar com aquilo e até se arrumou na cadeira. Quando ia
emitir um parecer, o velho – que enxergou ali uma possibilidade de se dar bem
aquela noite – se adiantou: “e é por isso que eu estava levando a Pri até a
porta, para mostrar que está tudo bem e que ela pode sair tranqüila esta noite
e voltar só na hora que bem entender”. Todos se entreolharam maliciosamente.
A menina agradeceu ao pai, beijou a mãe no rosto e saiu
cantarolando na direção da porta. O velho, safado, tratou logo apagar as luzes
e ir buscar um vinho. Voltou da cozinha com duas taças numa mão, uma vela acesa
na outra e aquela garrafa de Cabernet Franc safra 78 que guardava a sete chaves
já aberta debaixo do braço. Depois de tudo arrumado, copos cheios e vela
estrategicamente posicionada, a luz se acende. O casal se vira e vê a filha
parada junto a porta que liga o hall de entrada à sala. “Mãe, a pizza que você
pediu chegou”, disse ela, começando a chorar.

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